Uma história de amor

Escrevo após a final da Taça, entre o Vitória e o Benfica. Ao longo dos últimos meses tentei que a actualidade não contaminasse estas linhas, alimentando um pouco secreto desejo de que sobrevivam ao tempo e ao próprio autor, mas hoje é-me impossível passar ao lado do jogo. Tentei igualmente nunca falar de clubes, algo que julgo ter cumprido, tendo apenas cedido à tentação em uma ou duas ocasiões.

Se bem se lembram um dos textos chamava-se Cinco Minutos à Vitória, onde narrei uma ida à bola com o meu pai e confidenciei ser este o meu grito de guerra durante os jogos de fim-de-semana. Qual Vitória?, logo me perguntaram duas ou três pessoas com as quais me cruzo frequentemente, ainda assim, desconhecedoras não só do meu clube como das minhas raízes. O de Guimarães, respondi. És do Guimarães? A sério? Do Vitória, ripostei. Depois de mais uma série perguntas e algumas provocações, entre elas o desejo de saber qual o meu clube grande, não deixou de ser curioso verificar como logo me encontraram uma ou outra expressão com sotaque. Expressões que ignoraram ao longo de mais de uma década de convivência.

Não levei a mal. Já não é a primeira vez que me acontece algo semelhante. Durante alguns anos tive uma enteada e, talvez cansado de dizer que era seu padrasto ou o companheiro da mãe, chegava a responder afirmativamente quando me perguntavam se era minha filha. De imediato nos apontavam várias parecenças físicas. Tem os seus olhos, tem a sua boca, tem o seu nariz, diziam. Eu, é claro, concordava, sabendo que meu ela só tinha o coração e alguns defeitos de convivência que o tempo gentilmente se encarregará de apagar.

“Tu gostas mais do Vitória do que de mim!”, ou “como é que tu dizes que gostas de mim e não queres que o Benfica ganhe?”, eram frases que lhe saíam sempre que assistíamos a um Vitória vs Benfica. “Conta-me aquela história do dia em que marcaste um golo pelo Vitória e ganhaste a Taça de Portugal”, esta, fazia parte do lote dos pedidos, num tom de voz bem mais moderado. Eu lá recorria aos meus supostos dotes de autor de livros para crianças e tentava pintar da melhor forma que conseguia o meu passado futebolístico. Por mais que acrescentasse, subtraísse ou alterasse momentos chave – lembro-me de uma noite ter decidido a final com um golo do meio da rua e dois dias depois ter resolvido o jogo com um penálti no último minuto -, nunca me apontou as incongruências nem caiu na tentação de perguntar se era tudo inventado, talvez intuindo que a verdade seria mais dolorosa para mim do que para ela. Limitava-se a um inofensivo: “Um dia também vou jogar no Benfica”.

Escusado seria dizer que nunca joguei no Vitória, o mais próximo que estive do relvado foi durante um carga policial em que centenas de adeptos foram obrigados a fugir para o terreno de jogo, sei também que há vitorianos muito mais fiéis e fervorosos do que eu, mas hoje sinto que esta taça me era devida. Tendo em conta a História e o momento actual dos dois clubes, estou em crer que o adepto benfiquista levaria este troféu para casa como um mero prémio de consolação e rapidamente o esqueceria na vitrine ou no quarto dos fundos. O adepto vitoriano colocará esta taça no meio da sala, em cima da mesa de cozinha, fará dela um vaso onde crescerão flores, um copo por onde beberá vinho, champanhe e whisky todas as noites, irá para a cama com ela, fará sexo com ela, e, sobretudo, encontrará em cada memória, por mais longínqua, pessoal ou infantil que seja, um motivo para continuar a festejar e alimentar tão cega e pouco retribuída paixão.

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