Escrevo após a final da Taça, entre o Vitória e o Benfica. Ao longo dos últimos meses tentei que a actualidade não contaminasse estas linhas, alimentando um pouco secreto desejo de que sobrevivam ao tempo e ao próprio autor, mas hoje é-me impossível passar ao lado do jogo. Tentei igualmente nunca falar de clubes, algo que julgo ter cumprido, tendo apenas cedido à tentação em uma ou duas ocasiões.

Se bem se lembram um dos textos chamava-se Cinco Minutos à Vitória, onde narrei uma ida à bola com o meu pai e confidenciei ser este o meu grito de guerra durante os jogos de fim-de-semana. Qual Vitória?, logo me perguntaram duas ou três pessoas com as quais me cruzo frequentemente, ainda assim, desconhecedoras não só do meu clube como das minhas raízes. O de Guimarães, respondi. És do Guimarães? A sério? Do Vitória, ripostei. Depois de mais uma série perguntas e algumas provocações, entre elas o desejo de saber qual o meu clube grande, não deixou de ser curioso verificar como logo me encontraram uma ou outra expressão com sotaque. Expressões que ignoraram ao longo de mais de uma década de convivência.

Não levei a mal. Já não é a primeira vez que me acontece algo semelhante. Durante alguns anos tive uma enteada e, talvez cansado de dizer que era seu padrasto ou o companheiro da mãe, chegava a responder afirmativamente quando me perguntavam se era minha filha. De imediato nos apontavam várias parecenças físicas. Tem os seus olhos, tem a sua boca, tem o seu nariz, diziam. Eu, é claro, concordava, sabendo que meu ela só tinha o coração e alguns defeitos de convivência que o tempo gentilmente se encarregará de apagar.

“Tu gostas mais do Vitória do que de mim!”, ou “como é que tu dizes que gostas de mim e não queres que o Benfica ganhe?”, eram frases que lhe saíam sempre que assistíamos a um Vitória vs Benfica. “Conta-me aquela história do dia em que marcaste um golo pelo Vitória e ganhaste a Taça de Portugal”, esta, fazia parte do lote dos pedidos, num tom de voz bem mais moderado. Eu lá recorria aos meus supostos dotes de autor de livros para crianças e tentava pintar da melhor forma que conseguia o meu passado futebolístico. Por mais que acrescentasse, subtraísse ou alterasse momentos chave – lembro-me de uma noite ter decidido a final com um golo do meio da rua e dois dias depois ter resolvido o jogo com um penálti no último minuto -, nunca me apontou as incongruências nem caiu na tentação de perguntar se era tudo inventado, talvez intuindo que a verdade seria mais dolorosa para mim do que para ela. Limitava-se a um inofensivo: “Um dia também vou jogar no Benfica”.

Escusado seria dizer que nunca joguei no Vitória, o mais próximo que estive do relvado foi durante um carga policial em que centenas de adeptos foram obrigados a fugir para o terreno de jogo, sei também que há vitorianos muito mais fiéis e fervorosos do que eu, mas hoje sinto que esta taça me era devida. Tendo em conta a História e o momento actual dos dois clubes, estou em crer que o adepto benfiquista levaria este troféu para casa como um mero prémio de consolação e rapidamente o esqueceria na vitrine ou no quarto dos fundos. O adepto vitoriano colocará esta taça no meio da sala, em cima da mesa de cozinha, fará dela um vaso onde crescerão flores, um copo por onde beberá vinho, champanhe e whisky todas as noites, irá para a cama com ela, fará sexo com ela, e, sobretudo, encontrará em cada memória, por mais longínqua, pessoal ou infantil que seja, um motivo para continuar a festejar e alimentar tão cega e pouco retribuída paixão.

O futebol não fui que inventei, por mais que haja momentos em que me pareça ter nascido comigo, mas o futebol sem bola cheguei a acreditar ter sido uma criação minha. Minha e dos meus amigos de infância e colegas de escola. A única forma de esquecer é fingir, já se sabe, por isso quando não havia bola fazíamos de conta. Toques, passes, remates, faltas, disputávamos jogos com princípio, meio e fim, sabendo que a nossa bola imaginária nunca substituiria uma bola verdadeira, mas convencidos de que não poderíamos ter encontrado melhor solução. Mergulhávamos de tal forma naquele universo que, certo dia, perante um remate ao ângulo, voei tão alto que acabei por deslocar o ombro. Mas agarrei a bola. Ninguém teve dúvidas de que agarrei.

Hoje, não só teria muitas dificuldades em jogar futebol sem bola, como dificilmente fico satisfeito com a bola de jogo. Ou está demasiado cheia, dura como pedra, ou é demasiado leve e saltitona, ou está vazia, ou é pequena, ou demasiado grande, é raro não lhe encontrar um defeito. A bola nem sempre é redonda, ao contrário do que por aqui já foi dito, às vezes parece um ovo, o que me faz começar quase todos os jogos com um certa frustração.

Um hábito, ou um vício, se quiserem, também aceito que possa ser classificado como uma paranóia, que, infelizmente, não é partilhado pela maioria dos jogadores de fim-de-semana. Arrisco mesmo dizer que, grande parte dos meus colegas, joga com qualquer bola, ou independentemente do estado em que a bola esteja, indiferentes ao facto de ser em volta dela que tudo gira. Afirmo-o sabendo que estou, mais uma vez, a generalizar – vício do qual também padeço, ainda que, com este, conviva pacificamente.

Não sejas esquisito, não sejas chato, pára com isso, lá estás tu com as tuas manias, são algumas das frases que oiço no início de todos os jogos quando começo a palpar a bola qual cirurgião. Frases quase sempre ditas a mim mesmo, em surdina, para evitar conflitos e confusões. Salvo uma outra excepção – mete um bocadinho de ar ou tira um bocadinho de ar –, prefiro guardar os defeitos só para mim e usá-los como forma de motivação. Dominar com classe, apesar da bola. Marcar, apesar da bola. Vencer, apesar da bola. É uma táctica como qualquer outra.

Apenas me deixo levar quando encontro alguém parecido comigo, algo que, apesar de tudo, acontece de tempos a tempos. Percebo-o logo no aquecimento. Reconhecemo-nos mutuamente, diga-se. Não direi que seja como encontrar uma alma gémea, não vou tão longe (já fui longe demais nestes textos, pelo menos neste), a verdade é que dou por mim, damos por nós, a comentar as qualidades e características da bola como quem comenta um livro ou um filme. A trocar memórias como se fossem cromos.

Foi desta forma que acabei por descobrir não ter sido eu, nem os meus amigos de infância e colegas de escola, quem inventou o futebol sem bola. Que, tal como eu, tal como nós, houve quem tivesse passado horas a jogar sem bola, com bolas furadas, bolas murchas, bolas de ténis, bolas de matraquilhos, meias, pedras, com tudo o que aparecesse à mão e aos pés.

Não sei se é fundamental um jogador ter dado chutos no ar ou em pedras para perceber a real importância que a bola tem no jogo, tal como não é preciso ter passado fome para saborear uma maçã, ou ser-se mulher para perceber o quanto custa plantar um homem, mas é possível que ajude. A outra possibilidade, há sempre outra possibilidade, é que este seja apenas o comportamento normal de um jovem adulto pouco habituado a que, com o passar dos anos, a realidade e a moral insistam em ganhar espaço à imaginação.

Nos anos oitenta do século passado, um pronto-a-vestir numa pequena aldeia era uma atracção e eu era o filho da dona. Ainda não consigo olhar para mim como alguém que nasceu no século passado, mesmo que, em determinados momentos, a minha infância pareça ter tido lugar numa outra vida e num mundo bem mais longínquo do que os 360 km que na realidade nos separam, continuo, contudo, a ver-me como o filho da dona do pronto-a-vestir.

Sempre que me perguntavam o nome e a profissão dos meus pais – há uma idade em que nos perguntam o nome e a profissão dos pais -, lá dava os seus dados e, no caso da minha mãe, acrescentava: dona de um pronto-a-vestir. “Comerciante, não é preciso especificar”, respondiam-me amiúde. Mesmo depois de ter subido a empresária e, mais tarde, descido a reformada – e ultrapassado um pequeno período em que tive vergonha das minhas raízes -, nunca deixei de a ver e anunciar como a dona da única loja de roupa da aldeia. Ainda hoje é assim que a vejo. Como se tivesse agarrada à pele uma peça que jamais pudesse despir.

Tal como ela nunca terá deixado de olhar para mim como o seu manequim. Tempos houve em que tinha uma espécie de vida dupla: além de filho era também o seu modelo privado. Em casa de ferreiro, cabelo espetado e roupa de marca, já diz o ditado e não havia moda, gel ou laca que ela não me aplicasse. Havia, apesar de tudo, algo no qual ela não podia tocar: a roupa de desporto. No meu equipamento mandava eu. Era o meu último reduto, o espaço onde me permitia ser verdadeiramente livre. Teria sido capaz de fechar a mochila a cadeado, se preciso fosse.

Nunca foi. Tínhamos um acordo tácito que jamais esteve perto de ser quebrado. Ela podia fazer de mim o seu tubo de ensaio, eu podia equipar-me como muito bem entendesse. E por equipar-me como muito bem entendesse, entenda-se equipar-me como muito bem entendesse. Enquanto a maioria dos meus colegas procurava, por todos os meios, convencer os pais a presenteá-los com o último modelo da Adidas, Nike, Reebok ou da Le Coq Sportif, eu queria apenas jogar à bola, por mais rota que estivesse a camisola ou por mais largos que fossem os calções.

É provável que alguns questionem o porquê de trazer tão pessoal tema para estas “páginas” – além disso, acredito que a maioria estará já algo cansada destas aventuras caseiras algures entre o heroísmo e a auto-comiseração -, faço-o apenas porque o passado insiste em ter influência nos meus jogos de fim-de-semana.

Da mesma forma que, entre os oito e os dezoito anos, apresentar-me mal vestido em campo era uma forma de alimentar a rebeldia, não usar um equipamento oficial ou uma camisola com o meu nome nas costas é, hoje em dia, uma forma de manter os pés bem assentes no chão. Por mais que, aqui e ali, continue a passar-me pela cabeça ainda estar a tempo de começar uma carreira profissional, basta-me olhar as meias desemparelhadas, os calções de praia ou a t’shirt amarrotada, para me lembrar de que sou e sempre serei jogador de fim-de-semana. Ou isso ou uma enviesada desculpa de alguém que, aos 32 anos, ainda não é capaz de cuidar da sua roupa.

Sei que nada disto afecta a minha prestação em campo, pelo menos directamente, ainda assim, sinto que estará na altura de ter mais algum cuidado com a imagem, à semelhança da maioria dos meus colegas de jogo. Talvez por isso tenha recomeçado a levar um saco cheio de roupa suja sempre que vou à terra, como nos tempos de universitário. Corro o risco de, mais dia menos dia, a minha mãe não resistir à vontade de me vestir, mas já não estou tão certo de ser capaz de recusar.

–       Queres vir jogar, amanhã, ao meio dia?
–       Não posso.
–       De certeza?
–       Tenho uns textos para entregar e estou muito atrasado. Ainda por cima já tenho jogo hoje à noite.
–       É só uma horita, para descomprimir.
–       Nunca é só uma hora. Chegar, equipar, uma hora de jogo, tomar banho…
–       É contra o Carlos Manuel…
–       Carlos Manuel, o ex-jogador?
–       Sim. Ele e uns amigos polícias. Precisamos de um guarda-redes….
–       Ainda por cima à baliza?
–       Vá lá, não é todos os dias que podes defender os remates do Carlos Manuel.

Carlos Manuel, Alemanha vs Portugal, vou à procura na internet, apesar do trabalho, não é por dois ou três minutos. Já vi o golo mil vezes, todos vimos, mas agora é diferente, quem vai à baliza sou eu. O herói de Estugarda, o homem que derrotou a Alemanha com um tiro ao ângulo e colocou Portugal no México 86, numa altura em que não éramos presença assídua nas grandes competições. A ressaca chegou depois, chega sempre, em plena América Latina. O famoso caso Saltilho, prémios de jogo, greves, acusações, perna partida de Bento, derrotas contra Polónia e Marrocos, essas grandes potências. Portugal é uma festa em qualquer parte do mundo, os anos não passam por este país.
México 86! O meu primeiro Mundial. A minha primeira caderneta. Carlos Manuel no campo – um golo contra a Inglaterra -, Futre no banco, Maradona, assim na terra como no céu, quando voltam a fazer mundiais assim?

–       Vais jogar logo à noite?
–       Não sei, estou cheio de trabalho. E vou jogar agora ao meio dia, o Filipe convidou-me. É contra a equipa do Carlos Manuel.
–       Carlos Manuel, o ex-jogador?
–       Sim. Precisavam de um guarda-redes.
–       Sabias que o Carlos Manuel era o meu ídolo?
–       Não era o Futre?
–       O Futre e o Carlos  Manuel. Controlava a bola como ninguém.
–       Pois… dois jogos no mesmo dia é que talvez seja demais, ainda por cima com tanto que fazer. Tenho que aprender a dizer não.
–       Dizes da próxima vez. Não é todos dias que se tem a possibilidade de jogar contra o Carlos Manuel.

Já entre os postes. Carlos Manuel e polícias de um lado, jornalistas do outro. Começamos bem, ainda assim, não me entusiasmo. Nunca confiar num cozinheiro magro nem em jogadores mais velhos e com barriga, há ensinamentos que ficam para vida. Se fizer uma falta dentro da área marcam penálti ou mandam-me prender?, meto-me com ele. Há quem goste de conversar durante os jogos, pode ser que pegue. Não me ouve. Joga de gorro na cabeça, casaco e calças de fato de treino. Costumo, por mau feitio, não respeitar jogadores que jogam de calças e à mama, o futebol joga-se de calções e no campo todo, mas é o Carlos Manuel; 55 anos, 42 jogos pela selecção, quatro campeonatos, cinco Taças de Portugal, duas Supertaças, parece-me justo. Chega uma bola, finalmente, um cruzamento longo. Cola no peito, à entrada da área, roda, ganha posição, enquadra-se com a baliza e remata forte, colocado, em arco, com a bola a bater na parte exterior do poste. Pisca-me o olho. Estava lá – digo-lhe. O guarda-redes da Alemanha também. Shumacher. Nem de F1 a agarrava.

–     Está tudo bem, filho?
–       Cansado. Tenho que acabar uns textos e estou muito atrasado. Ainda por cima fiz dois jogos de futebol.
–       Dois?
–       Sim, um deles não podia recusar. Era contra o Carlos Manuel.
–       Quem é o Carlos Manuel? Um amigo teu?
–       Um antigo jogador…
–       E ganhaste?
–       Perdi.
–       O pai, está bem?
–       Está, foi ao café ver o Vitória.
–       Dá-lhe um beijo, quando ele chegar. E diz-lhe que hoje estive a jogar com o Carlos Manuel. Não te esqueças.
–       Ok, vou tentar não me esquecer. É assim tão importante?
–       É.

Tenho, por defeito profissional, alguns amigos que trabalham na televisão, mas como surgem com alguma frequência no pequeno ecrã, não me sinto obrigado nem tentado a perscrutar todas as suas aparições. Aquele com quem me “cruzo” mais vezes é jornalista de um canal de desporto, o que acaba por ser uma forma relativamente eficaz de matar saudades, já que nem sempre nos encontramos com a frequência que o nosso passado merece. Partilhámos casa na Universidade, fizemos dupla no Atelier de Audiovisual (ele à frente das câmaras, eu, sempre que possível atrás) e também no campo (eu a evitar golos, ele, sempre que não se perdia em fintas, a marcar). Jogava bem, ainda joga, tal como ainda conserva a mesma cara de miúdo. Enquanto eu envelheço na vida ele nem sequer envelhece no ecrã.

Apesar da minha formação e de todas estas afinidades, nunca trabalhei nem estive próximo de trabalhar em televisão. Já lá fui (correu bem, obrigado, pelo menos assim me pareceu e assim me mentiram), mas nem sequer me vi. Tal como nunca me vi jogar. Cheguei a esta conclusão a semana passada – estes textos estão a tornar-se pródigos em longas introduções e pequenas epifanias –, quando um amigo fez questão de me emprestar um vídeo com o seu jogo de fim-de-semana – conteúdo sobre o qual evitarei fazer comentários.

Mesmo não tendo especial interesse em assistir aos meus próprios jogos, sob o risco de pendurar definitivamente as ilusões, dei por mim a pensar que não deixa de ser paradoxal, quase perverso até, que, tendo eu crescido na época da televisão e do vídeo e sendo alguém com milhares de horas de futebol nos pés, nunca me tenha visto jogar à bola. Que nunca ninguém me tenha filmado por um segundo que seja. Não fossem estes textos e a memória dos que comigo partilharam e partilham o campo e, pura e simplesmente, não existiria enquanto jogador de fim-de-semana.

Se ninguém me viu na TV é até possível que todo o meu passado futebolístico não passe de uma ilusão.

Exagero, como sempre. Haverá, naturalmente, meia dúzia de fotos que comprovam a minha longa carreira – já me vi em calções, com a bola nos pés ou entre os postes, é um facto -, mas a sensação de estranheza não se desfaz sempre que olho para elas. Olho para mim próprio como para um corpo estranho, um corpo a quem a voz e o movimento não parecem ter sido destinados. Alguém que gosta, cada vez mais, de ser conhecido pelas suas mudanças de velocidade e lembrado pelos seus mil vezes repetidos e afamados voos, mas que ficará para a eternidade como o mais estático dos jogadores.

Não quer isto dizer que algumas vez tenha jogado com menos empenho ou de forma mais relaxada, bem pelo contrário. Dificilmente baixo os níveis de concentração e de vaidade. Mesmo jogando sempre sem público e sem câmaras, faço-o como se estivesse a ser observado, para não dizer filmado. Tal como tenho o estranho hábito de falar, às vezes até de pensar, como se estivesse a ser escutado. A minha namorada, por exemplo, quando discutimos um assunto de forma mais acalorada, acusa-me de que não pareço estar apenas a conversar com ela, mas a falar para uma audiência. Para a posteridade. Oiço isto e apetece-me logo largar tudo e ir para o meu canto bater a bola contra a parede, como fazia quando era pequeno, mas tenho medo que alguém me veja e coloque na internet, hoje em dia nunca se sabe. A acontecer, queria pelo menos estar bem equipado.

Sou organizador de jogo, nunca serei organizador de jogos.
Andei aqui às voltas com a frase, como se fosse a primeira, a tentar fugir quer do tema quer do trocadilho – fazer um trocadilho é como marcar um golo de baliza aberta, tão fácil quanto irresistível –, mas acabei por me deixar ir. Logo eu que não quero ser o escritor das fintas, o jogador de palavras, mas como isto não é literatura e o dono da bola sou eu, posso dar-me ao luxo de, aqui e ali, me perder em rodriguinhos e temas menores, mesmo correndo o risco de perder também a vossa atenção.

Não tenho nada contra quem organiza os jogos, que fique bem claro. Nunca tenho nada contra, aliás, no campo como na vida, a não ser um mas. Da mesma forma que um organizador de jogo é essencial a uma grande equipa – precisamos sempre de uns pezinhos que nos guiem -, alguém que organize as partidas é fundamental para que estas se realizem.

Convirá, contudo, explicar aos que não estão por dentro deste complexo sistema que é jogar à bola uma ou duas vezes por semana, qual a função de um organizador de jogos. Encontrar um campo; formar um grupo; marcar o campo; receber o dinheiro no início de cada mês ou no final de cada jogo; pagar o campo; pedir dinheiro a quem não pagou; voltar a pedir dinheiro a quem ainda não pagou; pedir dinheiro para comprar uma bola nova; comprar a bola nova; levar a bola para o campo; levar a bola para casa; levar os coletes; lavar os coletes; pedir a todos os jogadores que confirmem o mais cedo possível a sua presença no jogo; insistir com todos os jogadores para que confirmem a presença no jogo; arranjar mais um jogador caso falte alguém; comunicar quando não há jogo… um organizador pode ser tudo isto e muito mais, ainda que também possa ser um quarto de tudo isto ou muito menos, basta que se dividam tarefas.

Não tenho nada contra eles, volto a afirmar, eles é que costumam ter problemas comigo. O mesmo é dizer que dificilmente consigo aguentar-me num grupo durante muito tempo. Mais mês menos mês, mais ano menos ano, acabo por, invariavelmente, sair em conflito com os “chefes”. Tal como um organizador de jogo acha (e muito bem) que a equipa não sobrevive sem a magia da sua batuta, o organizador de jogos fica imbuído de um espírito quase messiânico e acredita que, sem ele e a sua proverbial capacidade organizativa, o futebol de fim-de-semana tal como o conhecemos deixaria de existir. Telefona, envia emails, chateia, cobra, chora e, quando a coisa azeda, diz que é a ele que cabe encontrar um campo, formar um grupo, marcar o campo, receber o dinheiro no início de cada mês ou no final de cada jogo, pagar o campo…. tudo isto e muito mais, ainda que toda a gente saiba que nenhum organizador de jogo faz um quarto destas tarefas.

Tenho consciência de que esta é uma guerra perdida – o próprio termo mostra que a questão é tudo menos pacífica e que a culpa está claramente do meu lado –, e receio, inclusive, que a situação se repita com o meu actual grupo, no qual jogo há cerca de dois anos. Pressinto mesmo que algo está para acontecer. Respondo aos emails a tempo e horas, tenho as contas em dia, tento arranjar jogadores sempre que se justifica, já levei os coletes para lavar, digo olá a toda a gente, ainda assim não estou descansado. No último grupo onde joguei, no final de uma partida, o organizador pediu-me dois minutos de atenção e, entre outras razões menores, disse-me que talvez fosse melhor deixar de jogar com eles porque sorria pouco. Isso mesmo, sorria pouco durante os jogos.
Nunca se sabe do que poderei ser acusado desta vez.

Quando o Instinto Fatal passou na televisão portuguesa já eu era um homenzinho, ainda assim, os meus pais acharam por bem esconder a cassete VHS na qual tinham gravado o filme. A sexualidade não se ensinava, por aqueles tempos, muito menos por aquelas aldeias, não deixava, contudo, de ser embaraçoso para dois pais exemplares que, num simples cruzar de pernas, Sharon Stone mostrasse ao seu único filho tudo aquilo que eles nunca tiveram coragem de lhe ensinar durante toda a adolescência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora que sou um homem e insisto em escrever sobre os tempos em pensava já ser um homenzinho, apercebo-me de que não terá sido bem assim que tudo se passou. A esta distância é fácil concluir que escondiam o filme com a certeza de que o encontraria, caso contrário, não teriam escolhido a mesma gaveta do guarda-fatos, onde, todas as semanas, ocultavam a cassete com as gravações do Domingo Desportivo. Sinto-me até algo embaraçado por nunca ter suspeitado de nada. Cada vez que partia em busca das gravações proibidas – provavelmente feitas por cima do concerto de Richard Clayderman ou da final do Mundial de Juniores de 1990, que desapareceram sem deixar rasto –, fazia-o com uma irrepetível dose de arrogância, convencido de que a minha perspicácia era proporcional à falta de imaginação dos meus humildes progenitores. Estava, afinal, a ser enganado. Educado. Conscientes de que eu era parte integrante de um complexo sistema de tráfico de filmes pornográficos que envolvia amigos de infância, colegas de escola e vizinhos de porta, sistema esse que ninguém tinha coragem de desmontar, deixar a cassete do Instinto Fatal ao meu alcance, era como se estivessem a tentar mostrar-me o outro lado do desejo e, sobretudo, do amor. De uma só vez lidavam tanto com as suas incapacidades, como com as minhas necessidades.

Não pensem que os critico, muito pelo contrário. Agradeço-lhes até. Gostaria, inclusive, de vir a fazer o mesmo com os meus filhos, não estivesse já tão formatado para as virtudes do diálogo.

O mesmo se passava com os resumos da jornada. Filho de gente remediada mas sonhadora, estava destinado a estudar fora, ser professor, médico, advogado – o quê não interessava, desde que fosse doutor -, e não deveria perder demasiado tempo com a bola. Se o fizesse, estava claro que seria contra a sua vontade, às escondidas, mesmo nunca tendo havido nenhuma proibição ou conversa formal sobre excesso de futebol na minha vida. Quando lhes perguntava porque não podia ver o Domingo Desportivo até ao fim, respondiam apenas que passava demasiado tarde e logo tratavam de fechar o assunto numa gaveta.

Durante algum tempo essa postura acicatou ainda mais a minha paixão pela bola, como qualquer bom rebelde que se preze, mas tudo mudou assim que comecei a trabalhar como jornalista. Nunca seria médico ou advogado, estava à vista, mas também não seria visto a escrever sobre bola. Criei mesmo um agudo complexo de culpa, que dura desde há dez anos a esta parte: se assisto a demasiados jogos, programas desportivos ou perco horas a discutir os lances e as substituições do fim-de-semana, não consigo deixar de me penitenciar e corro a ler um bom livro ou ver um bom filme. Ainda cheguei a acreditar que estes textos pudessem servir como uma espécie de catarse, mas nada mudou.

Só não me sinto culpado quando jogo. Enquanto estou em campo nunca me sinto culpado, por mais desculpas que peça durante o jogo, por mais jogos que faça durante a semana. É assim, sempre foi assim, não consigo explicar muito bem.

joão ferreira oliveira