Últimos à baliza

“Últimos à baliza!” Quem nunca disse ou ouviu esta frase é porque só joga
basquete. Contra o basquete nada, que fique bem claro. É sabido que, mesmo para
quem aprecia uma boa defesa, ir à baliza sempre foi a derradeira das opções, o refúgio
daqueles a quem pouco mais é concedido do que usar com as mãos,
como se saber usar as mãos fosse uma arte menor.

Eu, perdoem-me a imodéstia, percebi desde cedo que ser guarda-redes é o
mais próximo que um homem está de voar. Tirando isso, voar sem ajuda é suicídio.

E como eu voei entre os dez e os vinte e cinco anos. Além de meia dúzia
de testes satisfaz bastante e uma carta em que a minha namorada da adolescência
lamenta não nos termos conhecido muitos anos mais cedo, guardo no quarto da terra
três taças de guarda-redes menos batido. Torneios de sábado à tarde e domingos de
manhã em pisos com mais gravilha do que cimento. “Quantas esfoladelas trazes desta
vez, rapaz?”, lá perguntava a dona Cecília, misto de orgulho e sofrimento, com o
algodão e o frasco de Betadine em riste.

Ainda hoje, se há um dom com o qual julgo ter nascido foi precisamente esse,
ir à baliza. Ir à baliza e jogar matraquilhos. Ai os matraquilhos. Primeiro no café
Avenida, ao fundo da rua, enquanto os meus pais me julgavam no quarto a estudar;
uns anos mais tarde, no café da Saudade, também ao fundo da rua, enquanto os meus
pais me julgavam na Universidade a estudar. Não mudou quase nada, apenas a idade
e a mesa. Para pior, diga-se, mas o treino era de tal forma intensivo que as fintas lá
acabavam por sair. Sim, porque nos matrecos sempre joguei ao ataque.

Mas era de bola que falávamos, o melhor é não me perder em rodriguinhos.
Apesar desta queda pela baliza, houve um dia, um dia como qualquer outro, em
que sofri um golo e anunciei que seria o último. “A partir de agora só jogo à
frente” – disse, enquanto tirava a bola do fundo das redes. Assim, com a maior das
naturalidades, como uma espécie de epifania. Pode parecer estranho, mas acontece a
quase todos os guarda-redes. Seja porque acreditam haver em si um Garrincha, um
Chalana ou um Van Basten por revelar ao mundo; porque também têm o direito de
fazer o gosto ao pé; ou porque a barriga ameaça emancipar-se, raros são aqueles que
se aguentam no seu posto, vigilantes, fiéis, inabaláveis, até ao apito final.

O problema são os regressos. Era aqui que queria chegar. Esta semana, ainda
durante o aquecimento, senti-me fisicamente diminuído, culpa de uma velha lesão
no calcanhar que insiste em importunar-me. Como estávamos à conta e não queria
estragar aquela que, para muitos, é a melhor hora das suas semanas, propus defender
o tempo todo. Por que não? Ninguém precisa dos calcanhares para voar. À medida que me aproximava da linha de baliza apoderava-se de mim um entusiasmo que julgava perdido. Um princípio de euforia. Agora sim, poderiam ver o guarda-redes que sempre fui, conseguiriam comprovar ao longo de 60 minutos aquilo que a maioria terá visto a espaços ou ouvido em surdina: ninguém defende como o Oliveira.

A primeira intervenção, uma saída em falso sem consequências, foi o indício
de que algo de mau poderia estar para acontecer, mas era impossível imaginar o que
se seguiria: corpo hirto, pés sem reacção, braços que não se abrem mais, pernas que
não se fecham, mãos que já não agarram… enfim, o melhor é poupar em palavras o
que sobrou em golos. Foi uma exibição miserável, paupérrima, embaraçosa, que duas
ou três defesas vistosas jamais conseguirão apagar.

Tudo isto e a certeza de que voar é, afinal, o mais próximo que um homem está de cair.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

joão ferreira oliveira

%d bloggers like this: