A arte do insulto

A linguagem do futebol é universal, já se sabe, mas na altura de soltar a língua convém saber o universo em que mordemos. O convívio, o fair play, o companheirismo, a boa educação, o respeito, tudo isso é muito bonitinho e o Oliveira gosta. A verdade é que jogo sem uma ou outra picardia, um ou outro insulto, deixa de ser futebol. É um passeio no parque, um piquenique no campo ou apenas desporto, para isso vou ao ginásio ou correr junto ao Tejo com a minha namorada, que até queima mais calorias e faz melhor ao coração.

O futebol tem outro tempo, a bola é redonda e o redondo é irracional, como o corpo de uma mulher. Não há arestas onde nos possamos agarrar. Perdão, entusiasmei-me. São desnecessárias picardias em todos as partidas, como é óbvio. Há as que se querem descontraídas – especialmente na Primavera e no Verão – mas o futebol é, sobretudo, uma safra de Inverno. É preciso semear para colher. Jogando simples (estou numa fase algo trapalhona, demoro uma eternidade a abrir o jogo): há momentos em que é preciso aquecer o ambiente, acirrar os ânimos, espicaçar o povo, lembrar a certas alminhas mais vagarosas, pachorrentas, de bem com a vida, por certo, que, mesmo a feijões, o objectivo maior destes 60 minutos semanais é ganhar. Repito, agora mais alto, para quem não ouviu: GANHAR.

É aí que o caldo entorna. Especialmente com os colegas de equipa. As faltas, os penáltis, a omnipresente pergunta “quanto é que está o jogo, afinal?”, serão motivo de eterna discórdia entre adversários, mas quem por cá anda sabe que o verdadeiro jogador de fim-de-semana discute acima de tudo com o colega de equipa. Se este for nosso amigo, o mais amigo possível, se possível amigo de infância, tanto melhor.

Na hora do insulto a antiguidade é um posto. Um descanso.

Porque o amigo recente quando é ofendido dificilmente retalia. Mas fica magoado. Porque o amigo de longa data discute e depois perdoa-nos. Mas fica sentido. Porque insultar um desconhecido pode dar confusão à séria, nunca se sabe. Com o amigo de infância é diferente. O amigo de infância insulta e é insultado, mas nunca se chateia. Porque andou connosco na escola, porque tocou nas mesmas campainhas que nós, porque roubou a mesma fruta, porque viu os mesmos filmes pornográficos, porque brincou aos médicos com a nossa irmã. E nós com a dele. O amigo de infância, suspira, e diz apenas: “fooooda-se, és sempre a mesma merda”.

Isto tudo a propósito de uma mensagem de desculpas que acabo de enviar a um amigo recente, muito recente, a quem no último jogo acusei de ser um egoísta do caralho. “Não te preocupes” – respondeu. “São coisas que acontecem. No próximo fim-de-semana não vou poder jogar, mas depois falamos com calma. Um abraço” .

Nem eu. No próximo fim-de-semana vou à terra visitar os meus pais – passam-se meses sem lá pôr os pés -, e tentarei convencer o pessoal a fazer uma partidinha, para manter a forma. Há anos que não jogo com eles. Falei disto ao meu pai pelo telefone e ele desejou-me boa sorte. Diz que agora o desporto oficial da aldeia é o póquer e que passam os sábados à tarde metidos no café a jogar às cartas. Este sábado vai ser diferente, garanto-lhes que vai. Nem que para isso tenha que os insultar.

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joão ferreira oliveira

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