Ressaca

Sábado à noite, sofá, ressaca, zapping, Económico TV, Mário Zambujal?! Um homem das letras num mundo de números ou é bug ou é uma sorte, o melhor é parar.

Conversas de vida, assim se chama a rubrica. Convidar alguém com tanta vida é (sempre) garantia de uma boa conversa. Já não há jornalistas assim, penso. Uma carreira dedicada aos jornais, aos livros, ao desporto, à bola. A Bola, o Record, o Tal & Qual, a Rádio, a Televisão, mas sobretudo os jornais. Havia um tempo em que os escritores se faziam nos jornais, agora há escritores que não lêem jornais. Agora não há jornais, será mais correcto. Menos moralista. Jornais. Seis vezes a mesma palavra em tão poucos caracteres. Jornais. Se7e. Também foi director do Se7e, lembram-se? Eu não. Do Domingo Desportivo, sim. Jornais. Jornais. Repetir, repetir, para que morte não seja silenciosa. O papel pode acabar, mas tem que fazer barulho ao cair.

“Óh Marta”, diz Mário. Só um jornalista para se lembrar que os colegas têm nome. “Continua a ser um sedutor?”, pergunta Marta. Mário sorri e diz que tem 76 anos. Um homem de 76 anos a falar dos jogos de infância. A bola, sempre ela. Conta que jogava com Cavaco Silva no Algarve, que o tratava por miúdo, por puto, não fixei bem, qualquer uma das expressões me parece inofensiva. Foi apenas um aparte, a conversa volta rapidamente à meia-lua. As mulheres, os jornais, a escrita, a noite. O Bairro Alto. Havia uma altura em que as redacções ficavam todas no Bairro Alto, resta uma. Eu ainda lá cheguei a trabalhar. Tenho marcas que não me deixam mentir.

É por esses tempos que estou de ressaca. Ontem foi à despedida de mais uma revista onde trabalhei. O Mário Zambujal não o conheço, falo de cor, posso estar enganado, além de ressacado, mas o Rui Pelejão* eu vi, foi ele que me atirou a primeira letra. Fuma, bebe, escreve e ouve, tudo ao mesmo tempo. Já não há jornalistas assim, quanto mais directores. Posso falar à vontade, que agora não tem trabalho para me dar, só tempo livre. O mais certo é querer um lugar na minha equipa. Pelé chamam-lhe alguns, ignorando que no campo troca os pês pelos pés.

Deve ser como eu estarei amanhã. Amanhã tenho jogo. Jogo às quintas e aos domingos. “É terrível a proximidade entre as noites de sábado e os domingos de manhã para jogar à bola”, diz Mário. A conversa continua boa, como vêem, apesar das minhas interferências. Fala no presente. Um jogador de fim-de-semana, ainda hoje. Há uma idade para jogar com as pernas, outra com a memória, o que conta é o que fica. É duro jogar de ressaca, é um facto. Alguns dos meus piores jogos foram em dias ressaca. (E alguns dos melhores). Nunca se sabe o que poderá acontecer, é esse o desafio, é essa a beleza. Podemos renascer ou comprovar que estamos mortos, ainda que a estatística se incline cada vez mais para a última.

Em tempos, também alguns dos meus melhores textos foram escritos de ressaca. (E alguns dos piores). Superar os sóbrios era a única saída, tal o bafo da culpa.

Acho que já não resulta. Tal como já não resultará no jogo de amanhã, certamente. Ainda assim, enquanto vou vendo e ouvindo a entrevista, vou escrevendo este texto, ressacado, para tentar não perder a mão. E a memória. Era também disso que viviam as Memórias de um Craque, crónicas que Fernando Assis Pacheco escreveu todos os sábados no jornal Record, em 1972, no qual este “craque” tanto se inspirou. Era, à altura, Mário Zambujal chefe de redacção.

O mundo evolui, não é? Temos que estar preparados para tudo, até para ir à baliza. Nem as ressacas são eternas, que fará as revistas e os jornais.

*Rui Pelejão foi director das revistas Autosport e Volante.

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joão ferreira oliveira

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