Cinco minutos à Vitória

Ficámos os dois em silêncio a contemplar o relvado. Na bancada antiga, ainda sem cadeiras e cobertura. Um dia perguntei-lhe porque não íamos para a bancada coberta, ele respondeu-me que era só para os ricos. Confiava tão cegamente nas suas palavras que, durante algum tempo, acreditei que os ricos não podiam apanhar chuva. A classificação era má, o ambiente tenso, estava decidido que não iríamos esperar pela saída dos jogadores, era escusado insistir. Fomos dos últimos a sair do estádio. Seguimos a pé até ao carro, sintonizámos a rádio local e ficámos no parque a ouvir as reacções ao jogo. O treinador acabara de ser despedido.

– Pai…

– Sim?

– E se eu mudasse para o Sporting?

A resposta saiu seca, mas serena.

– Tu é que sabes. O clube é teu.

Ligou o carro, já não havia fila, e fomos para casa. Teria dez, doze anos, no máximo.

Carreguei esta memória até hoje como se de um crime se tratasse. Um crime que só ele presenciara e, por lealdade ou esquecimento, ajudou a silenciar. Leio agora uma notícia sobre um rapaz que pergunta ao pai se pode mudar de clube. O rapaz tem 12 anos e é do Sporting. O pai é Litos, antigo jogador do clube. Confessa-se preocupado e garante que tudo fará para que tal nunca aconteça. E, de repente, tudo volta. Volta esse final de tarde e todos os outros domingos em que íamos à bola. Eu por paixão ao clube, ele por paixão, percebo a esta distância.

Ele nunca amou aquela camisola branca como eu. Nunca sofreu o suficiente para insultar alguém, cuspir ou perseguir um árbitro, se preciso fosse. Nunca chorou por uma derrota. Ele não sofria por eles. Sofria por mim. Não, não direi que sofria por mim, que bola é bola, homens são homens e isto era para ser um texto de barba rija. Direi antes que sofria comigo. É isso, sofria comigo. De tal forma que, na maior parte dos jogos, era vê-lo tirar o rabo da pedra gelada e lançar para dentro das quatro linhas uma frase que chegava a levantar o estádio, palavra d’honra que chegava. “Vamos lá, cinco minutos à VITÓRIA” – gritava ele, e eu ali, a seu lado, corte à escovinha, a tentar disfarçar o orgulho o melhor que sabia.

Deixou de ser sócio no dia em que saí de casa. Hoje em dia vê apenas os resumos e ouve os relatos na rádio. As pessoas da sua geração sabem que um bom relato é mais emocionante que uma má realidade. Ainda assim, rara é a vez em que não terminamos as nossas conversas a comentar os resultados e a realidade do clube, mesmo que de forma fugaz. Quase sempre de forma fugaz. Há como que um acordo tácito para não irmos longe demais, a certeza de que o passado é um tempo que jamais voltaremos a conjugar.

Falamos sobre os outros. O Braga, o Benfica, o Porto, o Barcelona, o Real Madrid, o Ronaldo, o Messi, o Mourinho e, claro, o Sporting (o clube que um dia poderia ter sido meu). Falamos, sobretudo, sobre os meus jogos de fim-de-semana. Relato-os e comento-os como se de encontros da Liga dos Campeões se tratassem. Ele ouve, elogia, critica, reclama, dá palpites, faz a táctica, conhece de cor os nomes, os apelidos, as fraquezas, as virtudes e as manhas de todos os jogadores da minha equipa e da equipa adversária, mesmo nunca os tendo visto jogar. É este o nosso novo desporto. Pai e filho, uma vez mais, unidos pela mesma bola. Uma bola que nenhum dos dois quer perder.

O que ele não sabe é o motivo porque nunca cheguei a mudar de clube. Tal como não imaginará que utilizo o seu grito de guerra em todos os jogos. Que, quando grito, a minha voz soa tal e qual a dele.

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joão ferreira oliveira

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