Talvez

Talvez tivesse sido bom aluno, não fossem os testes,                                                                              talvez pudesse ter sido professor, não houvesse alunos nem avaliações,                                              talvez pudesse ter sido actor, não houvesse castings nem público,                                                        talvez pudesse ter sido um bom jornalista, não houvesse leitores,                                                          talvez pudesse ser um bom filho, não houvesse pais.

Talvez. É sempre uma possibilidade.

Tenho, desde pequeno, pânico de ser avaliado e eis-me aqui a abrir o livro. Há coisas que não se explicam. Ou explicam, vou tentar. Tal como fiz questão de nunca ser escuteiro – ficava, sozinho, à porta da igreja, à espera que os meus amigos saíssem das reuniões para podermos ir, em paz, jogar à bola -, sempre fugi dos treinos de captação. É o sonho de qualquer miúdo, jogar no seu clube ou num clube que lhe dê esperanças de vir a ser uma estrela, mas eu não era um miúdo qualquer. Eu era pequeno e gordo. Era pequeno e gordo e sabia-o. Sabia que um treino de captação rimava com humilhação, por isso entre a certeza de ser rejeitado e a esperança de ser descoberto por um olheiro, optei sempre por defender o meu próprio umbigo. 

Cresci o que tinha a crescer, envelheci o que tinha a envelhecer, emagreci o que tinha a emagrecer e, pelos vistos, enlouqueci mais do que era suposto. É a crise dos 30, porventura, ainda que com ligeiro atraso. Aos 31 anos, quase 32, passa-me pela cabeça que talvez ainda possa começar uma carreira como jogador profissional.

A culpa é de um destes filmes de domingo à tarde. Já tenho idade para me deixar levar por um ou outro filme mau sem ficar com sentimentos de culpa, não estava era preparado para tamanhos efeitos secundários. The Rookie. Dennis Quaid no seu melhor. Ou pior, quem quiser que avalie. Um professor de Ciências numa pequena cidade do Texas, treinador da equipa de basebol, pai de família que abandonara o sonho de ser jogador devido a uma lesão no ombro. Vou continuar, para quem não viu, agora sem derramar nenhuma lágrima, prometo. Estava de tal forma empenhado em moralizar a equipa que lançou umas bolas com eles – mostrar que sabes fazer, eis um dos mais antigos e eficazes métodos para exigir resultados. O resto é Hollywood. Os miúdos ficaram impressionados, “obrigaram-no” a ir a um treino de captação e acabou por jogar duas épocas na liga profissional. Aos 35 anos.

Americanices, eu sei, eu sei. Nem o facto de ser baseado numa história verídica me iliba, resta-me o consolo de saber que não estarei a enlouquecer sozinho. Contaram-me recentemente que, um homem, depois de no mesmo dia ter visto o Forrest Gump e ter lido Correr, de Jean Echenoz – romance que narra a vida de Emil Zátopek, o único atleta que ganhou os 5 mil, 10 mil metros e a maratona nas mesmas Olimpíadas -, ficou tão entusiasmado que correu cerca de 30 quilómetros. Como não costumava praticar desporto quase morreu.

Eu não. Eu estou em boa forma, jogo futebol às quintas e aos domingos, ténis às segundas e dou uma corrida aos sábados. Não só estou em boa forma física como estou a jogar melhor que nunca. Dia após dia, uma voz ecoa na minha cabeça e por mais que tente, por mais que me recrimine, não consigo deixar de me perguntar: por que não ir a uns treinos de captação? Começava por uma equipa da II Liga (há que manter alguma lucidez), e, se a época corresse bem, quem sabe, não poderia dar o salto?!

O Nuno Gomes e o Seedorf têm 36, o Scholes 37, o Del Piero 38, o Giggs 39, e ainda jogam. Tratam mal os jogadores mais velhos neste país, é esse o problema. O meu problema é o país. Emigrar, tentar a sorte noutro campeonato, talvez seja a solução. Inglaterra, China, Emirados, Austrália, Estados Unidos, opções não faltam. Ou até o Brasil. Quem nunca sonhou jogar no Maracanã?

Está na hora de começar a poupar para o bilhete de avião.

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joão ferreira oliveira

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