O cheiro do balneário

“O cheiro do balneário. Vou sentir falta do cheiro do balneário”. Há quem preveja o futuro e quem invoque o passado, é só uma questão de tempo. “O cheiro do balneário. Sinto falta do cheiro do balneário”. Jogadores em fim de carreira, antigos futebolistas, treinadores fora do activo, as aspas são minhas, as palavras são deles.

Não sou dono de um nariz perfeito, o espelho não me deixa mentir, nem tem personalidade própria, como o de Kovalev*, mas se há algo de que não me posso queixar é do meu olfacto. É precisamente por ter um olfacto tão apurado – faro poderia soar algo pretensioso – que oiço frases como estas e chega-me logo a mostarda ao nariz. Os balneários têm cheiro, é um facto. Um cheiro forte, intenso, inconfundível. Cheiro a cano. Cheiro a pomada. Cheiro a spray. Cheiro a suor. Cheiro a corpo. Cheiro a homem. Cheiro a pila. Cheiro a mijo. Cheiro a cu. Não raras vezes, a merda. Os balneários têm cheiro e eu memória, ainda que selectiva. Se há algo que, também eu, nunca esquecerei da única época que fiz como atleta federado é precisamente isso: o cheiro do balneário. Já passaram cerca de 15 anos e por muito que me assoe o odor não me sai do nariz.

O tempo passa, o mundo evolui, eu envelheço (a cantilena do costume, repito-me vezes sem conta, como já terão notado) e os balneários renovam-se, é certo – o que ontem era porco hoje é sushi, já ninguém suja as mãos, quanto mais os pés -, ainda assim, é-me impossível continuar impávido e sereno perante a força que esta expressão vai ganhando na já de si muy mal tratada gíria futebolística. Futebolês, se preferirem. Perguntem a um jogador dos distritais se terá saudades do cheiro do balneário. Uma rica metáfora é o que isto é.

Inclusive entre os jogadores de fim-de-semana a questão não é consensual. Tirando dois ou três, quase sempre por questões práticas, a maioria opta por seguir para casa com o corpo coberto de suor, mesmo correndo o risco de resfriar. Se depois tomam banho ou não é assunto deles. Eu nem sempre o faço, mas também transpiro pouco e vivo sozinho, a verdade é essa.

Naquela altura era diferente. Naquela altura tomávamos banho juntos, como qualquer equipa que se preze. Em pelota não há suplentes nem titulares. Recordo-me, contudo, que tivemos uma baixa a meio da época. O ponta de lança. Depois de um jogo em que marcou o golo da vitória a mãe foi procurá-lo ao balneário para o felicitar. Perguntou ao treinador se podia, “Posso?”, “Pode” e lá assomou à porta com as suas botas brancas de canos cerrados e água de colónia que o marido lhe trazia todos os Natais da Alemanha. Os jogos disputavam-se aos domingos de manhã, depois da missa. Ficou tão mal impressionada que retirou o filho da equipa, indiferente aos apelos directivos de que se tratava do nosso melhor marcador.

É sabido que uma desgraça nunca vem só. Algumas jornadas depois, levei com doze pitons de alumínio na cara e fiquei inconsciente durante alguns segundos. Chegou a temer-se o pior. Mostraram-me dois dedos, três dedos, cinco dedos, dez dedos, “já chega de dedos, alguém disse”, perguntaram-me como me chamava e qual era o meu clube. Respondi a tudo com acerto. Vi as caras de pânico darem lugar a meia-dúzia de palavrões, “está vivo, o filho da puta”, “pregaste-nos cá um susto”, ouvi o árbitro dizer que não me preocupasse, que a ambulância já estava a caminho, mas foi só quando entrei no balneário que soube ter recuperado de vez os sentidos.

A vida fede mesmo quando nos partem a cana do nariz. O resto são metáforas.

 

*Personagem de O Nariz, conto de Gogol.

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joão ferreira oliveira

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