Amor à camisola

O Barcelona anda a estragar os meus jogos de fim-de-semana. Que os seus jogadores tenham transformado um desporto de milhões numa espécie de briga de miúdos – como se a bola fosse só deles e não a pudessem emprestar a mais ninguém – é algo que não me diz respeito, o problema é quando também eu sou impedido de jogar. A culpa não é da equipa catalã, como é óbvio, pelo menos directamente, mas dos seus fiéis devotos. De todos aqueles que confundem filosofia com religião.

Passo a explicar. Há o tiki-taka e o tic-tac. O primeiro é, como sabem, o nome com que foi baptizado o sistema de jogo do Barcelona, em que os passes e as jogadas se sucedem com uma precisão relojoeira. O segundo, um modelo de jogo que, por sistema, alguns jogadores de fim-de-semana acreditam tratar-se do tiki-taka, mas que não passa de uma imitação barata (perdoem-me a sovinice da expressão). Um relógio em que o tempo corre, mas os ponteiros continuam parados. Tic-tac, bola para a esquerda, tic-tac, bola para a direita, tic-tac, bola para o lado, tic-tac, bola para trás, tic-tac, bola para a esquerda, tic-tac, bola para a direita, tic-tac, bola para o lado, tic-tac, bola para trás… e assim sucessivamente, até à sonolência geral.

Ainda estão aí? Jogar simples, escrever simples, pintar com traço simples, compor com melodias simples, realizar filmes com argumentos simples – e mais uma série de artes ou artifícios que queiram acrescentar – pode levar a resultados excepcionais, mas só resulta se os executantes forem, também eles, excepcionais. Da mesma forma que, tal como dizia o brasileiro Nélson Rodrigues “só os profetas enxergam o óbvio”, só os grandes executantes conseguem fazer parecer fácil aquilo que, não raras vezes, demorou séculos a aprimorar. Depois vimos nós, neste caso os outros (excepcionalmente sou mais vítima do que culpado), dispostos a fazer o mesmo do pé para a mão, de pé para pé, como se a arte fosse apenas uma questão de vontade e de respiração. “Com calma, à Barcelona, à Barcelona, tiki-taka, segura a bola, temporiza, joga atrás, passa ao redes, não arrisques…” Não arrisques? Não arrisques? O futebol é risco, meu caros, vertigem, emoção, tentativa, erro. Golo. Golo. Ou eu me enganei na definição ou vocês no desporto. Perguntem ao Xavi, ao Iniesta e ao Messi. A questão não é eles não arriscarem, o problema é eles raramente falharem.

Estou algo exaltado, confesso, talvez isso me faça perder a razão, mas ser moderado no campo e na escrita é pedir demasiado. Já me cortam as pernas, não me obriguem também a morder a língua. A questão é simples (mais uma vez), acho que já devem ter percebido: quero os meus antigos jogos de volta. Já não pretendo ganhar, já nem me importo de perder, quero apenas voltar a jogar.

Como é que se isto se faz? Não sei ao certo, mas tenho uma sugestão: mais do que jogar à Barcelona, limitem-se a equipar à Barcelona. É esse o meu truque. Quando, por volta dos doze, treze anos, o professor de Educação Visual me apresentou a Picasso, o impacto foi tal que julguei ter visto o meu ponto de fuga e desatei a pintar como o espanhol. Não havia margem para dúvidas. Estava escrito: eu, João Ferreira Oliveira, filho de uma dona de pronto-a-vestir e de um torneiro mecânico, seria o Pablo Picasso português e conquistaria o mundo de pincel na mão. Meia dúzia de desenhos e uma negativa no final do período bastaram para que trocasse definitivamente os pincéis pela caneta. Mais tarde a caneta pelo computador. À laia de homenagem, ou em jeito de compensação, passei a usar camisolas à marinheiro, outra das  imagens de marca do mestre. Ainda hoje as uso, quer faça chuva, quer faça sol. Não é isso o amor à camisola?

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joão ferreira oliveira

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