Jogo de sonho

“Quando não consigo adormecer penso nas melhores jogadas que fiz e nos golos que marquei”.

A confissão é de um amigo meu, o maior, porventura, com quem jogo futebol há quase uma década. Apesar dos 40 – ele que me perdoe o advérbio, mas no campo os anos pesam mais do que na vida -, continua a encarar cada partida como se fosse a primeira. Ou a última. Piques de minuto em minuto, petardos do meio da rua, remates de ângulo impossível, os olhos na baliza mesmo quando de costas

a vitória, se possível, 

o golo, sempre,

diria dele, aos gritos, o locutor, se os jogos fossem transmitidos em directo.

Está bom de ver que as triangulações e as tabelas à entrada da área nem sempre são fáceis entre nós, ainda assim, sou obrigado a reconhecer que o invejo. Inveja, sim, esse sentimento que só entre verdadeiros amigos o pode verdadeiramente ser. Enquanto a maioria dos jogadores de fim-de-semana tenta adaptar o seu estilo de jogo à idade, à barriga, ao cansaço, às mazelas ou à ressaca, fazendo valer-se da experiência, (a tão ansiada e respeitada ratice), ele insiste em jogar como se tivesse vinte anos. Em manter vivo o passado, nem que seja a pontapé. É-lhe totalmente indiferente que, meia hora depois do início da partida, os pulmões e as pernas rebentem em uníssono, como um fogo de artifício que anuncia o fim de festa. Nada nem ninguém o faz mudar de atitude.

Sou assim – limita-se a dizer, sem nunca encolher os ombros.

No dia em que, por entre uns jaquizinhos com arroz de grelos e dois jarros de tinto (à mesa jogamos ambos com igual sofreguidão), me revelou a sua fórmula para enfrentar as insónias, “quando não consigo adormecer penso nas melhores jogadas que fiz e nos golos que marquei”, nunca é demais repetir, a minha reacção foi uma sonora gargalhada. Uma gargalhada tão infantil e ingénua quanto este texto. Gozei-o que nem um perdido. Que isso era coisa de velho, que tenho 31 anos, quase 32, e um homem aos 31 anos, quase 32, tem mais em que pensar, sobretudo na cama.

Ó Jorge, meu caro Jorge. Desculpa. Logo ontem que ele não foi, logo ontem que tu não foste – só mesmo uma pubalgia para te fazer parar, e mesmo assim não sei, a ver vamos quanto tempo aguentas -, fiz uma joga daquelas. Um jogo de sonho, não há que ter medo das palavras. Cabeça levantada, variações de flanco, passes de rotura, mudanças de velocidade, toques de calcanhar, até golos de cabeça, deu para tudo. Uma espécie de Rui Costa do INATEL. Fui para casa sozinho, vou sempre, e quando dei por mim, ali estava eu, na cama, deitado, olhos bem abertos, sorriso de baliza à baliza, a rever os melhores momentos da partida. E que momentos. Dormi como há muito não acontecia.

É possível que esteja a envelhecer demasiado cedo. Ou talvez não. Talvez seja normal, talvez todos os jogadores o façam e eu, como em tantas ocasiões à boca da vida, terei apenas chegado atrasado. O problema é o peso extra que esta situação me coloca. Afinal falamos de um homem que, apesar das suas idiossincrasias (ou graças a elas), foi, e continua a ser, um grande jogador. Momentos de glória para embalar o sono não lhe faltarão. Eu, pelo contrário, apenas de quando em vez tenho uma exibição digna de hossanas e, a julgar pelos últimos jogos – o raio da lesão no calcanhar não me larga -, corro o risco de ver as insónias agudizarem-se.

Já me chega ter que pagar para jogar. Ainda não tenho idade para tomar comprimidos para dormir.

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joão ferreira oliveira

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