Octávio, o dono da bola

A escolha cabia aos dois melhores jogadores. Os restantes encostavam-se à parede e aguardavam, em silêncio, por um dedo indicador que se erguesse na sua direcção. Todos nós já fomos encostados à parede, pelo menos uma vez na vida. Começou na escola.

Quero o Filipe
Quero o André.
Quero o António.
Escolho o Jorge.
Escolho o Luís.
(hesitação)
Escolho o Manel.
(pausa)
Fico com o João.
(pausa prolongada)
Fico com o Fernando.
Está bem (voz arrastada). Eu fico com o David. Mas não é justo. Fico sempre com o David, ainda por cima já tenho o Octávio.

O Octávio… O Octávio era um caso à parte. O Octávio não entrava nas contas. O Octávio era pior do que o David. O Octávio era, porventura, o pior jogador do mundo. Mas levava a bola. Naquela altura, por razões que agora me escapam, não tinha bola quem queria, tinha bola quem tinha. E quem tinha jogava sempre.

Assim foi durante uns anos, até que, depois de umas férias grandes, o Octávio voltou de mãos a abanar. Não faltou quem lhe quisesse ir ao pêlo, aviar a marmita, dar no focinho – a expressão era indiferente desde que fosse com força -, mas como bater era um desporto reservado ao director da escola, salvou-se com meia dúzia de insultos. Palavras que, registe-se, acatou com superior educação.

O problema resolveu-se com uma bola emprestada. De resto, tudo na mesma.

Quero o Filipe.
Quero o André.
Quero o Jorge.
Escolho o Luís.
Escolho o Manel.
(hesitação)
Escolho o José
(pausa)
Fico com o Fernando.
Fico com o João.
(pausa prolongada)
Fico com o David.
Está bem (voz arrastada), eu fico com o Octávio.

Quem não se ficou foi o Octávio. O Octávio tinha uma surpresa guardada na ponta das botas. Em apenas duas ou três jogadas mostrou-nos que trocara a sua velha bola por uns pés novos e esbofeteou-nos com uma exibição memorável. Quase divina. Em três meses progredira tanto como eu jamais o farei em três vidas. Ficou tudo de boca aberta. Era capaz de jurar que foi este o momento em que surgiu a expressão ficar de boca aberta, hoje em dia conhecida e aplicada um pouco por todo o mundo, mas não o farei. O Octávio fintava, rematava e organizava o jogo como ninguém. E quando digo ninguém, é mesmo ninguém. Era, oficialmente, o dono da bola.

Exagero? Um pouco, porventura, algo que, acredito, me perdoarão. Há apenas duas formas de contar uma história: acrescentar ou omitir, só assim se consegue ser verdadeiro. (Mas isto é conversa de intervalo). No dia seguinte não faltaram bolas, pelo sim pelo não. E o Octávio jamais voltou a encostar-se à parede.

Poderia igualmente jurar ter sido este o dia em que decidi tornar-me guarda-redes, poderia afirmar ter sido eu quem instituiu que fossem os dois guarda-redes a fazer a constituição das equipas e não os dois melhores jogadores – sistema bem mais democrático, reconheça-se, que, ainda hoje, vigora em qualquer escola -, mas isso tornaria o texto insuportavelmente académico. São demasiado académicos estes textos, estarei ainda a tempo de salvar as minhas memórias?

Ficou pouco desses tempos. Nos jogos de fim-de-semana as equipas estão feitas, os jogadores à conta e a bola compra-se e paga-se entre todos, que o futebol entre amigos tem tiques comunistas. Ainda assim, há momentos em que o passado insiste em vir à tona. Por estes dias, quando vejo tanta gente encostada à parede, quando vejo tanta gente ser encostada à parede, dou por mim a pensar no Octávio. A pensar que o jogo vira, que a história não acaba assim.

O futebol não tem moral, mas dá lições, poderia afirmar, se não soasse algo moralista. O melhor é focar-me na bola. Atirar o barro à parede e levantar a cabeça.

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joão ferreira oliveira

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