Filho, onde estás?

“Gostava muito de te ver jogar;
um dia vou assistir a um jogo teu;
o melhor é combinar com as minhas amigas;
é isso, vou combinar com as minhas amigas e vou ver-te jogar;
estou mesmo curiosa por ver-te jogar.”

Durante meses esta ladainha e depois… Nem um olhar, um aplauso, um sorriso, um assobio, um insulto, sei lá, já estava por tudo, poderia ter-me chamado frangueiro que até com isso me contentava – há insultos que são como declarações de amor, disse-me um dia um psicólogo, eu apenas reproduzo -, mas nada. Nem por um segundo a vi focada na partida. Em pé, de costas para o campo, réu-péu-péu com amigas, a falar sei lá de quê, a rir sei lá de quê, com aquele sorriso casto que só a vida e os homens são capazes de roubar. Que falta de respeito, embirrava eu com as minhas luvas. Tentava acalmar-me, mas aquilo era mais do que os meus vividos 16 anos poderiam suportar. Não porque estivesse a fazer a exibição da minha vida – eu defendia sempre tudo, naqueles tempos (já vos falei disso, não falei?) – queria apenas que ela olhasse para mim. Provar-lhe que o seu primeiro, grande e eterno amor, era capaz de voar.

– Se era para isto mais valia não teres vindo – disse-lhe, de penálti.

Meu dito meu feito. Cortou-me as asas e o pio, despenhou-se o amor. A esta distância sou incapaz de precisar se os meus colegas tiveram a mesma fina atitude com as suas namoradas, se fomos vítimas de uma solidária cabala feminina, sei, isso sim, que esse jogo foi o prenúncio de uma realidade que perdura até hoje: jogar sem público. É esta a sina de um jogador de fim-de-semana: jogar sem público, repito. Não haverá problema em repetir uma frase quando a realidade se repete todas as semanas. Para não dizer todos os dias. Tirando alguns torneios – os torneios são um caso à parte, alguém devia escrever sobre isso –, o jogador de fim-de-semana limita-se jogar entre si. Às vezes para si. Como o escritor que não publica. A banda que não sai da garagem. O actor da peça que nunca estreia.

Nem sempre é fácil viver assim, convenhamos. Jogar assim, perdoem-me, tenho uma tendência para exageros metafísicos. Vejam o caso de um dos meus colegas de equipa. Joga com a camisola do brasileiro Kaká, auto-intitula-se de Kaká, tem aqui e ali, pormenores que fazem lembrar Kaká, inclusive na forma como ajeita o cabelo, e não há ninguém, um olheiro, um jornalista (há vários nos meus jogos, por defeito, mas em calções), um mísero espectador que tome nota do momento. Estamos condenados a seduzir quem nos tenta derrotar.

Quando muito, há uma ou outra criança, lá isso há. Escusado será dizer, ainda assim eu digo, que em idade adulta nenhuma mulher tem coragem, nem vontade, nem paciência, para assistir a um jogo de bola do namorado ou do marido, imaginem a figura. Mas o jogador de fim-de-semana não se dá por vencido, o jogador de fim-de-semana nunca se dá por esquecido. O truque passa, precisamente, por levar os filhos.

“Não tinha onde o deixar;
Fica aí quietinho enquanto o pai joga;
Fica num sítio em que eu te possa ver;
Não vás para longe;
Podes ser o nosso apanha-bolas, tens é que estar atento.”

É a ladainha do costume. Ladainha é feminino, mas também vai bem com homens. Os homens são básicos, não é isso que se diz?, deve ser por isso que quando um homem afirma que teve ou quer ter filhos cedo para poder jogar à bola com eles, está na realidade a dizer que gostava que estes nascessem a tempo de ver o pai jogar.

Só me falta o filho.

 

http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/5964/filho-onde-estas

 

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joão ferreira oliveira

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