O estrangeiro

O plano foi traçado com o Amigo, a quem telefonei ainda no comboio.
– Amigo, vamos jogar à bola?
– Hoje?
– Sim.
– É muito difícil. O pessoal, agora, aos sábados à tarde, está mais virado para o póquer.
– Eu sei, o meu pai contou-me.
Ainda assim, insisti. Há anos que não jogava com os meus amigos de infância e convencê-lo seria a única forma de o conseguir. Não é a toa que se chama Amigo. A sua personalidade transformou-se em nome próprio, Samuel soa a apelido.
– Ok, vamos tentar, mas temos que chegar cedo ao café – lá para as duas, duas e meia, no máximo -, e não podemos deixar ninguém começar a jogar às cartas. Mandas a boca e eu ajudo a fazer pressão. Como és tu a dizer pode ser que tenhamos sorte
– Combinado.

Resultou em cheio, mais insulto menos insulto. Até o Russo conseguimos arrastar. Não esperava era ter que convencer o Kanu. O Kanu, o melhor jogador que aquela terra terá visto, o bom gigante que dormia com a bola, que era capaz de dar toques com o pé esquerdo enquanto sacava cavalos na bicicleta, que podia comer este mundo e o outro, tem uma série de quilos novos e, crime dos crimes, está a perder a vontade de jogar. O irmão mais velho, o Rui Seco, que de seco também já só tem o apelido, é que era assim. Parecia jogar para fazer um favor aos outros, chegava lá e partia aquilo tudo. Como se um dom pudesse ser tratado a pontapé.

Fui a casa dos meus pais equipar-me, voltei ao café e seguimos para o ringue junto ao campo da bola. Uma farmácia, um ringue, uma caixa Multibanco e um cemitério novo, eram estas as exigências da aldeia quando parti. Não falta nada agora, só o futuro. Aparecem mais jogadores, estranho algumas caras, o Amigo explica-me de quem são filhos e netos, e lá me situo. Tratam-me pelo primeiro e segundo nome sem hesitar. Quem vai para fora cria nome, mesmo que não tenha vida.

De quem nunca tinha ouvido falar era do Espanhol, mas rapidamente percebo que faz parte da casa, a ver pela forma como insulta toda a gente. Espanhol porque trabalha em Espanha, 1.70 m, equipamento da selecção portuguesa, cigarro na boca, garrafa de água de 1,5 litros debaixo do braço. Água. Limão. Açúcar. Bagaço.
– Para que é isso Espanhol? – pergunta-lhe o Russo.
– Para matar a sede – dispara.

Deveria ter percebido que não bebe apenas para matar a sede, mas também joga para matar. Dá-me uma, dá-me outra, dá a todos, cai, sangra, coloca bagaço no estômago, no joelho, e continua. Mais calmo, penso. Uma ferida aberta é um bom calmante. Engano-me, como de costume.
– O que é isto? Assim é demais. Não estou aqui para me magoar.
O Amigo pede calma, o Russo vai ao banco fumar um cigarro, o Isaque, o Hugo e o Kanu gozam, como sempre.
– Olha-me este, armado em anjinho!

Fazemos uma pausa, o Espanhol oferece-me da sua garrafa. Relaxo. Tem bons pés, apesar de tudo. Têm todos. É uma das características de qualquer aldeia que se preze. As pessoas podem não ter cabeça, mas têm sempre bons pés.

Voltámos ao campo e jogámos até a noite cair, como se a infância tivesse aproveitado o dia de sol para nos visitar e não tivéssemos coragem de lhe virar as costas.
– Tens que vir cá mais vezes – diz o Amigo, enquanto me leva a casa.
– Pois tenho… É incrível como o Kanu continua a jogar tanto.
– E o Jonas…
– E o Jonas, sim.

Tiro os ténis do meu pai – dois números e trinta anos acima -, tomo um banho de imersão e coloco Betadine nas feridas.

À mesa, pergunto à minha mãe se sabe quem é o Espanhol.
– O único estrangeiro da rua és tu – responde-me sem hesitar, com o seu sorriso de sempre e um sotaque que, em tempos, terá sido meu.

http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/6223/o-estrangeiro

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joão ferreira oliveira

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