Crime e castigo

Perder um pé sempre que se falha um golo, eis uma ideia para melhorar a eficácia.

Há anos que o meu pai defende a seguinte teoria: tirando uma dúzia de jogadores, onde se incluem nomes como o de Maradona, Pelé, Eusébio, Di Stéfano, George Best, Garrincha, Futre, Messi ou Ronaldo, a maioria dos futebolistas não tem qualidade. Isso mesmo, leram bem.

– Não tem qualidade? – perguntava eu, eriçado, atirando para cima da mesa nomes como Zidane, Figo, Rui Costa, Romário, Platini, Bergkamp, Van Basten, João Pinto, Stoichkov, Guardiola, Beckenbauer, apenas para citar alguns.
– Esses são considerados futebolistas de eleição porque os outros são fracos – defendia-se. Nem sequer sentia necessidade de se defender. Afirmava, apenas, tal a convicção nos seus argumentos. – O futebol está nivelado por baixo. Figo, Romário ou Guardiola não fazem mais do que a sua obrigação. Fazem aquilo que deveria ser feito por qualquer profissional que se preze. Jogar bem.

Por jogar bem entenda-se não falhar passes curtos, conseguir colocar a bola a vinte ou trinta metros de distância, ter visão de jogo, soltar a bola na hora certa, possuir um bom remate, ser capaz de fazer uma ou duas fintas, jogar de cabeça levantada, saber posicionar-se em campo, etc, etc. E ainda ter estilo. Ter estilo sempre lhe pareceu condição fundamental.

Eu contestava, naturalmente (o tempo verbal deixa antever uma mudança, está bom de ver). Dizia que não fazia sentido, que o futebol é imprevisível, que não é matemática, que é jogado por homens, que a bola é redonda e por aí fora, numa torrente de argumentos tão básicos como irrefutáveis. Mas ele não se ficava.
– Tu, que és guarda-redes, não podes falhar nem um décimo daquilo que falham os jogadores de campo. O teu castigo é o golo.
Este era, para mim, um argumento difícil de rebater e ele sabia-o. No seu íntimo, todo o guarda-redes acredita que uma defesa merece ser tão celebrada como um golo e que um passe ou um remate falhado deveriam ser tão censurados como um frango, mas lá me aguentava como podia e limitava-me a dizer que era uma comparação descabida. Que fazer arte com os pés era infinitamente mais difícil do que fazê-lo com as mãos, com a cabeça ou até com o coração.
Fazer arte com os pés, eis a beleza do futebol – provocava-o.

Foi num desses dias que o ouvi soltar o mais cruel dos argumentos.
– Eu, na minha profissão, ao mínimo erro, ficava sem a mão. Imagina se sempre que um jogador falhasse um golo ficasse sem um pé.

A esta hora ele estará a dizer que tudo isto não passa de uma invenção, que deturpei as suas palavras para justificar a minha própria teoria – é possível que até tenha alguma razão, terei interpretado o que ele queria dizer, mais do que reproduzir aquilo que disse, é defeito de profissão -, certo, certo é que, nos últimos tempos, quando vejo um jogo em directo ou me sento no sofá a assistir aos resumos da jornada, dou por mim a concluir que a genialidade de alguns é a confirmação da mediania de quase todos.

Será este o meu futuro: perceber que o meu pai tem razão?

Ontem, cerca de uma hora depois do meu jogo de fim-de-semana, vi um jogador que ganha milhões falhar um golo de baliza aberta. Um falhanço escandaloso, daqueles que, entre amigos, daria direito a quinze dias de chacota, no mínimo. Levou as mãos à cabeça, coxeou durante alguns segundos e lá prosseguiu, cabisbaixo, vergado pelo peso da sua própria culpa, enquanto o comentador dizia que lhe faltava o pé esquerdo.

Desliguei a televisão e fui-me deitar.

1 comment
  1. Américo said:

    Não sou muito de acompanhar futebol, mas adorei o texto! Muito bom! Parabéns…

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joão ferreira oliveira

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