A bola é redonda

“A Terra é redonda, talvez por isso a tratemos a pontapé”.
Tinha esta frase esquecida num documento há vários meses. Guardo frases como algumas pessoas guardam bilhetes de concertos, cinema ou futebol. O mais acertado seria, porventura, não utilizá-la neste texto, não utilizá-la em texto algum, mas ela insinuou-se, diria mesmo que se impôs, como o pedaço de papel que aparece no fundo de uma gaveta e nos coloca de novo na cadeira onde há décadas nos sentáramos.
Anotei-a depois de um encontro com alguns amigos, no qual lhes confidenciei a minha vontade de escrever sobre os jogos de fim-de-semana. É para aí que sou transportado. Éramos quatro, uma mulher e três homens. Não me recordo do dia nem do local onde estávamos, tenho, contudo, bem presente o conteúdo da conversa. Acontece-me com frequência. Dificilmente consigo unir as peças todas. Sou capaz de reviver uma defesa feita algures na infância, descrever finta a finta um golo do Paulinho Cascavel ou saber de cor o alinhamento de um concerto, mas não conseguir visualizar quem estava a meu lado. Tal como sou incapaz de me esquecer do dia em que cuspi pela primeira e única vez na cara de alguém, mas não me lembrar do seu rosto. Outros momentos há em que apenas me lembro das caras, como se o espaço, o tempo e a sua voz tivessem sido apagados.
Gostaram da ideia da crónica, os meus amigos. Afirmaram, inclusive, que qualquer jornal ou revista se interessaria pelos textos (previsão que falhariam redondamente), o que só reforça o respeito que tenho por eles, pois continuam a acreditar tanto no meio onde trabalham como nas minhas qualidades, mesmo conhecendo a fundo as fraquezas de ambos. Levados pelo tema, demos por nós a falar sobre futebol. Sobre a sua essência, mais do que sobre os resultados ou os penáltis da jornada. O porquê de despertar tantas paixões. O porquê de deixar tanta gente estúpida.
A discussão foi longa e inconclusiva, como seria de esperar. Não houve consenso quanto aos exactos motivos que fazem do futebol tudo aquilo que ele é – desígnio que, à partida, sabíamos impossível de alcançar – ainda assim, houve consenso quanto ao seu magnetismo. Mesmo o único dos presentes que desdenha qualquer tipo de desporto (homem, convém referir), acabou por reconhecer que não compreendia a magia da bola, mas percebia que a bola tivesse a sua magia, um duvidoso trocadilho de última hora que o salvou de ser apelidado de quadrado, algo que, tenho a certeza, o teria afectado profundamente, tal a forma literária como encara a vida. No que houve consenso, diria mesmo unanimidade, foi quanto ao tom dos meus textos. Teria que evitar a qualquer custo cair em sentimentalismos. E não só. Jamais deveria ceder à perigosa e sedutora tentação de explicar a magia do futebol. Que isso era conversa de café, um tiro no pé, um golo na própria baliza. Que os textos, sendo bons, tratariam de dar as suas próprias explicações.
Sendo eles gente mais velha e sábia, e não duvidando de que querem o melhor para mim, algo que eu próprio nem sempre estou certo de querer, cheguei a casa, abri um documento e escrevi “A Terra é redonda, talvez por isso a tratemos a pontapé”, como que marcando o tom para tudo o que se seguiria. Pareceu-me, à altura, um bom colete à prova do meu eu sentimental, seja lá o que isso for. Qualquer puerilidade seria de imediato rechaçada.
Quinze textos após o início desta crónica, exactamente a meio do objectivo a que me propus, organizo os ficheiros de uma pasta a que chamei de jogador de fim-de-semana – e dou de caras com a frase. A seu lado estão outras duas que terei anotado na mesma altura – nenhuma de minha autoria, logo mais sábias: “A vida é como a cebola, há que descascá-la a chorar”, salvo erro roubada a um livro de Júlio Cortázar. A segunda, uma verdade tão irrefutável quanto universal: “A bola é redonda”.
Tão pouco tempo depois (o que são quinzes textos e alguns meses?), olho para estas três frases e sinto-me fintado por elas. Abro e fecho o documento vezes sem conta. Leio o que escrevi até agora como um treinador olha para a sua equipa ao intervalo, sem saber, contudo, o resultado da primeira parte e que táctica utilizar na segunda. Cresce a sensação de que, por mais jogos que faça, por mais textos que escreva, estarei sempre no mesmo sítio, que a bola volta irremediavelmente ao centro e jamais conseguirei definir este desporto, o jogador de fim-de-semana. Dou por mim a ficar sentimental, como já terão reparado, se é isto que é ser sentimental. A pensar que a Terra não será redonda por acaso. A imaginar que, se um dia não restar mais nada, podemos sempre jogar à bola com ela, que isto tudo no fim fará algum sentido. A desejar poder sentir-lhe a textura. É o que faço antes de cada jogo. Tomar o pulso à bola, confirmar que está viva. Redondinha.
O círculo será sempre a mais perfeita e enganadora das figuras geométricas. A lua, quando cheia, é redonda. A roda é redonda, os olhos são redondos, a cebola é redonda. O coração só não é redondo porque, se fosse, nunca mais pararia.

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joão ferreira oliveira

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