Este desporto (não) é para mulheres

Desta vez vou directo ao assunto, que esta táctica de deixar a ideia forte sempre para o fim é tão cansativo para quem lê como para quem escreve. Então é assim: em tempos, joguei futebol com uma mulher e perdi.

Já que vou abrir o jogo o melhor é ser (totalmente) sincero. Em tempos, joguei contra uma mulher e fui humilhado, arrasado, siderado, ela fez de mim o que quis, gato sapato, soube-lhe a pato, chamou-me um figo e um mais um sem número de expressões, e fintas, e triangulações, e golos, que ainda hoje me deixam com a cabeça à roda sempre que me lembro disso. E agora estou a lembrar-me disso.

Era um domingo à noite, como qualquer outro domingo à noite de bola, passavam alguns minutos da hora marcada e o décimo elemento tardava. Logo um dos jogadores mais pontuais. Decidimos telefonar-lhe.

– Então pá?
– Tive um acidente. Nada de grave, mas com a confusão esqueci-me de avisar que não chegava a tempo. Logo hoje que me apetecia tanto jogar.
Pediu desculpa e desligou. (Um homem tem um acidente e lamenta-se por não poder jogar à bola. A magia da redondinha, sempre ela.)

Era preciso encontrar alguém para o substituir. Não há nada pior do que começar uma partida com menos um jogador, mesmo quando se está do lado da equipa que tem um jogador a mais. O futebol gosta de números certos, pelo menos no início. Depois ganham ou perdem os mais fortes. Faz parte do jogo. Da ilusão. Olhamos em volta. Na pista de atletismo um grupo de três velhotes conversa. No campo de basquete dois rapazes demasiado novos lançam bolas ao cesto. Restam três mulheres. Fazem alongamentos, na relva, junto ao campo.

– Eu posso jogar, se quiserem – diz uma delas. Fala francês.
– Obrigado. Não é preciso.
– Sei jogar, não se preocupem.
Recusar uma vez é normal, duas é má educação.
– Tens a certeza?
– Tenho.
– Então pode ser.

Um homem seria óptimo, uma mulher pode ser, o machismo vê-se na força das expressões. Demos-lhe um colete e começámos a partida, que a hora já ia avançada. O que se seguiu é fácil de resumir: quarenta e cinco minutos em que não só foi a mulher em campo, como a melhor em campo. Nós apenas nove homens a correr atrás de uma bola.

– Estou impressionado.
– Também eu.
– Parabéns.
Os elogios saíram em coro. Agradeceu com delicadeza e lá nos explicou que jogava desde os cinco anos (tinha dezoito) e que o seu desejo era ser futebolista profissional. As primas, mais velhas, mais recatadas, mais portuguesas, sorriam.

Despediram-se e deixaram-nos entregues à nossa própria humilhação.
– Esta é daquelas cenas que contada ninguém acredita.
– A realidade é mais estranha do que a ficção, não é isso que se diz?

Durante muito tempo, a cada competição de futebol feminino que os jornais noticiavam ou a cada jogo que o Eurosport transmitia, mantive a esperança de a encontrar, alimentava o pouco secreto desejo de ter sido humilhado, não por uma mulher qualquer, mas por uma das melhores jogadores de futebol do mundo. Busca em vão. Pelo caminho fui, contudo, registando algumas declarações. Guardo frases como quem guarda bilhetes, já terei confessado algures. “As mulheres pensam melhor do jogo do que os homens”, disse a capitã da selecção nacional de sub19. Mais recentemente, a Directora para o Futebol Feminino da Federação Portuguesa afirmou que as mulheres fingem menos no relvado e que “são capazes de se levantar e dizer ao árbitro que não foi falta”.

Podemos estar descansados, por enquanto. Ainda vai demorar algum tempo para que elas joguem tão bem ou melhor do que homens. Mas não se admirem se um dia.

http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/6519/este-desporto-nao-e-para-mulheres

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joão ferreira oliveira

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