Desculpem

Desculpa, não te vi; desculpa, pouca força; desculpa, pensei que estavas
sozinho; desculpa, pensei que te ias desmarcar; desculpa, muita força; desculpa, foi
sem querer; desculpa, estou de rastos; desculpa, peguei-lhe mal; desculpa, perdi o
tempo de passe; desculpa, estava embalado; desculpa, pensei que eras tu; desculpa.

Hão-de desculpar-me a heresia mas o futebol também é isto.

Em casa, no trabalho, entre amigos, na rua, no amor, no supermercado, nas
finanças, no governo, no hospital, – a lista poderia continuar ad eternum, tal como a
anterior -, em nenhum outro local ou circunstância pedi, me pediram ou ouvi serem
pedidas tantas desculpas como num campo de futebol.
Não quero com isto dizer que o futebol é um exemplo no que à boa educação
diz respeito, longe de mim, eu que por lá ando, logo insulto, sei o quão demagógico
seria. Se bem se recordam (não se recordarão, com toda a certeza), afirmei num dos
primeiros textos ser um fiel defensor de um ou outro insulto – “jogo sem uma ou
outra picardia, um ou outro insulto, deixa de ser futebol” – foram estas as palavras
exactas. Continuo a pensar exactamente o mesmo, faço até questão de o reafirmar,
não posso, contudo, deixar de referir a outra (e cortês) faceta dos jogos de fim-de-
semana. Aliás, nesse mesmo texto, assumo ter enviado uma mensagem de desculpas
a um amigo a quem acusara de ser um egoísta do caralho. (Desde já aproveito para
pedir desculpa por ter citado o meu próprio texto duas vezes).

Nada mais natural, pensarão alguns, afinal é sabido que o insulto e o pedido
de desculpas são unha com carne. Que depois do erro vem a redenção. Sim, mas nem
sempre. Ao contrário do que aconteceu no meu caso, ao contrário do que acontece no
dia a dia – o futebol nunca fará parte do dia a dia de um jogador de fim-de-semana,
será sempre o seu ponto de fuga -, dentro de campo não é preciso haver insultos para
que haja pedidos de desculpas. Basta sentir que se errou.

Não exagero. Tenho por hábito exagerar, aqui e ali, mas não desta vez.
Pedem-se desculpas às centenas, durante um jogo, a cada passe que não sai, a cada
bola que não entra, a cada jogada que não dá golo, pede-se desculpa porque sim e
porque não, por tudo, mas, cima de tudo, por nada. Cheguei mesmo a cruzar-me
com um rapaz a quem apelidavam de “O Desculpas”, tal a frequência com que se
penitenciava. Não se justificava, perdia perdão, apenas.

Podem dizer-me que é mais uma questão de hábito do que educação – também
eu não excluo essa hipótese -, ainda assim, garanto-vos que pedir desculpa não é tão
simples como parece. Leva o seu tempo. É preciso treino para que a palavra possa
fluir na plenitude. Vergados pela força da expressão, há mesmo quem não consiga
pronunciar a totalidade da palavra e se limite a dizer escupa, muito baixo, como
se eles próprios pudessem ser apanhados a desculparem-se. Outros há que dizem
sorry. Outros ainda que se limitam a levantar o braço. Lá chegarão, com o tempo,
certamente.

Perdoem-me mas tinha que falar nisto. Se momentos há em que levo os
problemas para o campo, agora são os hábitos que tenho no campo que parecem
vir comigo para casa. Até para estes textos. Como já terão reparado (eu sei que já
repararam), são demasiadas as vezes em que, por uma ou por outra razão, peço que
me perdoem. Tal como nos últimos dias tenho passado o tempo a pedir desculpa às
pessoas que me rodeiam, mesmo sem qualquer razão aparente. Talvez o facto de
não jogar há mais de duas semanas explique este comportamento. Poderia sempre
consultar Freud, mas não me parece que ele se tenha debruçado sobre o assunto.

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joão ferreira oliveira

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