O tempo

Num dos textos de “Selvagens e Sentimentais”, Javier Marías escreve que os amantes do futebol têm uma forma adicional de medir o tempo: a realização do Campeonato do Mundo de selecções de quatro em quatro anos. “Lembro-me de como em criança costumava calcular no fim de cada um deles a idade que teria quando começasse o seguinte, e como ambas as coisas, a idade e o acontecimento, me pareciam remotas e até improváveis”.

Acostumado às vitórias do seu Real Madrid e à magia dos pés de Di Stéfano, o pequeno Javier não tinha, por esses tempos, na selecção do seu país o maior dos aliados. “Sempre que a selecção espanhola fracassava e era eliminada, tinha a impressão de que seria preciso transcorrer uma eternidade até que surgisse uma nova oportunidade de o ganhar”. Lamenta-se de que uma eternidade passou e Espanha não ganhou nada, nem sequer alcançou uma final. (Convém referir que o texto foi escrito em 1998). Segue-se uma reflexão sobre a previsibilidade do futebol, a sua cada vez maior falta de epopeia, deslumbramento e dramaticidade. Assim termina: “Porque o mais insuportável de tudo, na idade que tenho agora, é que os Mundiais decorram tão monótona e inadvertidamente como passam às vezes quatro anos em plena idade adulta”.

Recebi o livro esta semana, custou-me 5,40 euros (portes de envio incluídos). Vinha dentro de uma caixa almofadada, como se as letras fossem um objecto frágil ou de valor. Há muito que pensara comprá-lo, mas tinha medo de ser influenciado. Receava cair na tentação de roubar descaradamente algumas das suas reflexões sobre o mundo do futebol, aplicando-as ao universo do jogador de fim-de-semana. Não corro esse perigo, afinal. Os textos são demasiado bons para serem roubados por um amador, resta-me por isso citá-lo.

Tal como ele, e como milhões de crianças espanholas e portuguesas, hoje em dia tão ou mais velhas do que eu — certamente mais adultas —, também eu já medi o tempo de quatro em quatro anos. Como quatro anos me pareciam uma eternidade, e à medida que a selecção portuguesa começou a ser uma presença mais regular nas grandes competições, passei a incluir os Campeonatos da Europa e a medir o tempo de dois em dois. E à semelhança de Javier Marías, também uma eternidade passou sem que Portugal tenha ganho o que quer que fosse. Fomos a uma final, é verdade, com a Grécia, a poderosa Grécia, ainda que a dor pela derrota caseira tenha aniquilado um eventual regozijo pela conquista do segundo lugar.

A esta distância é fácil concluir que o futebol ensaiava uma tragédia que os políticos se encarregariam de encenar, golpe de teatro que quase nos impossibilitou de viver o presente, mas que, se não por “fair play”, por solidariedade, nos ensinou a olhar para esse domingo de 4 de Julho de 2004 com menos revolta e até alguma poesia.

Ao ler este texto, “As Velozes Eternidades”, tomo consciência de que há muito não meço o tempo de dois em dois, ou de quatro em quatro anos. Nem sequer de segunda à sexta. Como bom jogador de fim-de-semana que sou, meço o tempo de sete em sete dias. De domingo a domingo. De quinta a quinta. De jogo a jogo.

A sensação é ambígua. Vivo entre o desejo e o lamento. Entre a ânsia de que mais um jogo chegue e a constatação de que mais uma semana passou (tudo isto é uma evidência, eu sei; não esperem de mim grandes revelações). A vantagem é que, mesmo que os jogos decorram tão monótona e inadvertidamente como passam os dias de um adulto, não temos que esperar uma eternidade até ao próximo jogo. Ainda que, na prática, haja semanas que demoram uma eternidade a passar.

http://p3.publico.pt/node/6816

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joão ferreira oliveira

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