Conversa fiada

– Que se passou?
– Parti o pé.
– Partiu?
– Parti.
– Como?
– A jogar futebol.
– A jogar futebol?
– Sim.
– E agora?
– Agora o quê?
– Como vai trabalhar?
– Escrevo com as mãos.
– E como vai para o trabalho.
– Vou de muletas.
– Não dá jeito nenhum.
– É um pé partido, nada mais do que isso.
– Vai meter baixa?
– Por que é que haveria meter baixa por partir um pé a jogar futebol?
– Há quem o faça.
– Não sei.
– Sei eu. E a sua chefe, não ficou chateada por ter partido um pé?
– Como?
– Se a sua chefe não ficou chateada por ter partido o pé a jogar à bola?
– Porque haveria de ficar?
– Porque não pode trabalhar a 100%.
– Estou a trabalhar a 100%.
– Isso é o que você diz. Além do gesso deve ter dores. E não pode sair à rua em reportagem.
– Claro que posso sair à rua em reportagem. Não tenho dores. E tenho muletas, já lhe disse. Não me parece que parece que ter um pé partido seja sinónimo de invalidez.
– Imagine que tem que correr atrás de alguém?
– Em dez anos de jornalismo nunca tive que correr atrás de ninguém.
– Mas tem de concordar comigo que é chato trabalhar com um pé partido. Ainda por cima ter sido a jogar futebol…
– Não percebo onde quer chegar.
– Se tivesse sido em trabalho, numa queda, ou a fazer uma tarefa doméstica qualquer, mas foi a jogar futebol.
– Continuo sem perceber onde quer chegar.
– Quero dizer que talvez devesse ter mais cuidado. Não estou a criticá-lo, há coisas que não podemos controlar, mas talvez, aqui e ali, pudéssemos ser mais cautelosos.
– Está a sugerir que não devia jogar futebol?
– Claro que não, por amor de deus. Apenas digo que é preciso ter alguma cautela. Imagine que se magoava a sério. Ficava sem poder trabalhar.
– Não acredito no que estou a ouvir…
– Você está a levar as coisas para o sentido errado.
– E se eu lhe disser que escrevo pior quando não jogo?
– Então não vão ser fáceis, estes dias.
(silêncio)
– Desculpe.
– Não tem importância.
– Quanto tempo vai ficar com o gesso?
– Três semanas.
– Três semanas passam rápido.
– Sim.
– Eu também parti um pé, há muitos, muitos anos.
– A sério?
– A jogar futebol.
– Está a gozar comigo?
– Não estou nada. Assinei contrato profissional e pouco depois tive uma lesão grave.
– Partir um pé não é uma lesão grave.
– Pois não. O pé partido foi antes, ainda era juvenil. O meu problema foi o joelho.
– Então?
– Tive um acidente. Fiquei a estudar até muito tarde para um exame que tinha nessa semana. Treinava de dia e estudava à noite, contra a vontade toda a gente. Dormi pouco, três ou quatro horas. Na manhã seguinte adormeci ao volante. Destruí o joelho.
– Destruiu?
– Destruí é como quem diz. Você sabe que o joelho é das partes mais importantes para um jogador. Nunca mais fiquei a cem por cento. Voltei aos treinos, andei a arrastar-me durante um ano e acabei por abandonar.
– Que idade tinha?
– Dezanove.
– Pois.
– Devia ter deixado a escola, tal como me aconselharam.
– Mas assim nunca poderia ter tido a carreira profissional que teve?
– Mas poderia ter sido um grande jogador.
(silêncio)
– É por isso que lhe digo para ter cuidado. Imagine que um dia se magoa a sério. Na cabeça, numa mão, sei lá, e que isso o obriga a deixar de escrever.
– Haverá muitas outras razões que me obriguem a deixar de escrever. Aliás, quase todas as razões são válidas para deixar de escrever.
– Acho que compreendo.
– O futebol…
– Eu sei, eu sei, a quem o diz.
(silêncio)
– Mas tenha cuidado.
– Tenho que ter mais cuidado, tem razão.

* A partir de uma conversa com um vizinho.

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joão ferreira oliveira

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