Sharon Stone e as cassetes escondidas

Quando o Instinto Fatal passou na televisão portuguesa já eu era um homenzinho, ainda assim, os meus pais acharam por bem esconder a cassete VHS na qual tinham gravado o filme. A sexualidade não se ensinava, por aqueles tempos, muito menos por aquelas aldeias, não deixava, contudo, de ser embaraçoso para dois pais exemplares que, num simples cruzar de pernas, Sharon Stone mostrasse ao seu único filho tudo aquilo que eles nunca tiveram coragem de lhe ensinar durante toda a adolescência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora que sou um homem e insisto em escrever sobre os tempos em pensava já ser um homenzinho, apercebo-me de que não terá sido bem assim que tudo se passou. A esta distância é fácil concluir que escondiam o filme com a certeza de que o encontraria, caso contrário, não teriam escolhido a mesma gaveta do guarda-fatos, onde, todas as semanas, ocultavam a cassete com as gravações do Domingo Desportivo. Sinto-me até algo embaraçado por nunca ter suspeitado de nada. Cada vez que partia em busca das gravações proibidas – provavelmente feitas por cima do concerto de Richard Clayderman ou da final do Mundial de Juniores de 1990, que desapareceram sem deixar rasto –, fazia-o com uma irrepetível dose de arrogância, convencido de que a minha perspicácia era proporcional à falta de imaginação dos meus humildes progenitores. Estava, afinal, a ser enganado. Educado. Conscientes de que eu era parte integrante de um complexo sistema de tráfico de filmes pornográficos que envolvia amigos de infância, colegas de escola e vizinhos de porta, sistema esse que ninguém tinha coragem de desmontar, deixar a cassete do Instinto Fatal ao meu alcance, era como se estivessem a tentar mostrar-me o outro lado do desejo e, sobretudo, do amor. De uma só vez lidavam tanto com as suas incapacidades, como com as minhas necessidades.

Não pensem que os critico, muito pelo contrário. Agradeço-lhes até. Gostaria, inclusive, de vir a fazer o mesmo com os meus filhos, não estivesse já tão formatado para as virtudes do diálogo.

O mesmo se passava com os resumos da jornada. Filho de gente remediada mas sonhadora, estava destinado a estudar fora, ser professor, médico, advogado – o quê não interessava, desde que fosse doutor -, e não deveria perder demasiado tempo com a bola. Se o fizesse, estava claro que seria contra a sua vontade, às escondidas, mesmo nunca tendo havido nenhuma proibição ou conversa formal sobre excesso de futebol na minha vida. Quando lhes perguntava porque não podia ver o Domingo Desportivo até ao fim, respondiam apenas que passava demasiado tarde e logo tratavam de fechar o assunto numa gaveta.

Durante algum tempo essa postura acicatou ainda mais a minha paixão pela bola, como qualquer bom rebelde que se preze, mas tudo mudou assim que comecei a trabalhar como jornalista. Nunca seria médico ou advogado, estava à vista, mas também não seria visto a escrever sobre bola. Criei mesmo um agudo complexo de culpa, que dura desde há dez anos a esta parte: se assisto a demasiados jogos, programas desportivos ou perco horas a discutir os lances e as substituições do fim-de-semana, não consigo deixar de me penitenciar e corro a ler um bom livro ou ver um bom filme. Ainda cheguei a acreditar que estes textos pudessem servir como uma espécie de catarse, mas nada mudou.

Só não me sinto culpado quando jogo. Enquanto estou em campo nunca me sinto culpado, por mais desculpas que peça durante o jogo, por mais jogos que faça durante a semana. É assim, sempre foi assim, não consigo explicar muito bem.

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joão ferreira oliveira

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