Organizadores…

Sou organizador de jogo, nunca serei organizador de jogos.
Andei aqui às voltas com a frase, como se fosse a primeira, a tentar fugir quer do tema quer do trocadilho – fazer um trocadilho é como marcar um golo de baliza aberta, tão fácil quanto irresistível –, mas acabei por me deixar ir. Logo eu que não quero ser o escritor das fintas, o jogador de palavras, mas como isto não é literatura e o dono da bola sou eu, posso dar-me ao luxo de, aqui e ali, me perder em rodriguinhos e temas menores, mesmo correndo o risco de perder também a vossa atenção.

Não tenho nada contra quem organiza os jogos, que fique bem claro. Nunca tenho nada contra, aliás, no campo como na vida, a não ser um mas. Da mesma forma que um organizador de jogo é essencial a uma grande equipa – precisamos sempre de uns pezinhos que nos guiem -, alguém que organize as partidas é fundamental para que estas se realizem.

Convirá, contudo, explicar aos que não estão por dentro deste complexo sistema que é jogar à bola uma ou duas vezes por semana, qual a função de um organizador de jogos. Encontrar um campo; formar um grupo; marcar o campo; receber o dinheiro no início de cada mês ou no final de cada jogo; pagar o campo; pedir dinheiro a quem não pagou; voltar a pedir dinheiro a quem ainda não pagou; pedir dinheiro para comprar uma bola nova; comprar a bola nova; levar a bola para o campo; levar a bola para casa; levar os coletes; lavar os coletes; pedir a todos os jogadores que confirmem o mais cedo possível a sua presença no jogo; insistir com todos os jogadores para que confirmem a presença no jogo; arranjar mais um jogador caso falte alguém; comunicar quando não há jogo… um organizador pode ser tudo isto e muito mais, ainda que também possa ser um quarto de tudo isto ou muito menos, basta que se dividam tarefas.

Não tenho nada contra eles, volto a afirmar, eles é que costumam ter problemas comigo. O mesmo é dizer que dificilmente consigo aguentar-me num grupo durante muito tempo. Mais mês menos mês, mais ano menos ano, acabo por, invariavelmente, sair em conflito com os “chefes”. Tal como um organizador de jogo acha (e muito bem) que a equipa não sobrevive sem a magia da sua batuta, o organizador de jogos fica imbuído de um espírito quase messiânico e acredita que, sem ele e a sua proverbial capacidade organizativa, o futebol de fim-de-semana tal como o conhecemos deixaria de existir. Telefona, envia emails, chateia, cobra, chora e, quando a coisa azeda, diz que é a ele que cabe encontrar um campo, formar um grupo, marcar o campo, receber o dinheiro no início de cada mês ou no final de cada jogo, pagar o campo…. tudo isto e muito mais, ainda que toda a gente saiba que nenhum organizador de jogo faz um quarto destas tarefas.

Tenho consciência de que esta é uma guerra perdida – o próprio termo mostra que a questão é tudo menos pacífica e que a culpa está claramente do meu lado –, e receio, inclusive, que a situação se repita com o meu actual grupo, no qual jogo há cerca de dois anos. Pressinto mesmo que algo está para acontecer. Respondo aos emails a tempo e horas, tenho as contas em dia, tento arranjar jogadores sempre que se justifica, já levei os coletes para lavar, digo olá a toda a gente, ainda assim não estou descansado. No último grupo onde joguei, no final de uma partida, o organizador pediu-me dois minutos de atenção e, entre outras razões menores, disse-me que talvez fosse melhor deixar de jogar com eles porque sorria pouco. Isso mesmo, sorria pouco durante os jogos.
Nunca se sabe do que poderei ser acusado desta vez.

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joão ferreira oliveira

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