Jogo filmado

Tenho, por defeito profissional, alguns amigos que trabalham na televisão, mas como surgem com alguma frequência no pequeno ecrã, não me sinto obrigado nem tentado a perscrutar todas as suas aparições. Aquele com quem me “cruzo” mais vezes é jornalista de um canal de desporto, o que acaba por ser uma forma relativamente eficaz de matar saudades, já que nem sempre nos encontramos com a frequência que o nosso passado merece. Partilhámos casa na Universidade, fizemos dupla no Atelier de Audiovisual (ele à frente das câmaras, eu, sempre que possível atrás) e também no campo (eu a evitar golos, ele, sempre que não se perdia em fintas, a marcar). Jogava bem, ainda joga, tal como ainda conserva a mesma cara de miúdo. Enquanto eu envelheço na vida ele nem sequer envelhece no ecrã.

Apesar da minha formação e de todas estas afinidades, nunca trabalhei nem estive próximo de trabalhar em televisão. Já lá fui (correu bem, obrigado, pelo menos assim me pareceu e assim me mentiram), mas nem sequer me vi. Tal como nunca me vi jogar. Cheguei a esta conclusão a semana passada – estes textos estão a tornar-se pródigos em longas introduções e pequenas epifanias –, quando um amigo fez questão de me emprestar um vídeo com o seu jogo de fim-de-semana – conteúdo sobre o qual evitarei fazer comentários.

Mesmo não tendo especial interesse em assistir aos meus próprios jogos, sob o risco de pendurar definitivamente as ilusões, dei por mim a pensar que não deixa de ser paradoxal, quase perverso até, que, tendo eu crescido na época da televisão e do vídeo e sendo alguém com milhares de horas de futebol nos pés, nunca me tenha visto jogar à bola. Que nunca ninguém me tenha filmado por um segundo que seja. Não fossem estes textos e a memória dos que comigo partilharam e partilham o campo e, pura e simplesmente, não existiria enquanto jogador de fim-de-semana.

Se ninguém me viu na TV é até possível que todo o meu passado futebolístico não passe de uma ilusão.

Exagero, como sempre. Haverá, naturalmente, meia dúzia de fotos que comprovam a minha longa carreira – já me vi em calções, com a bola nos pés ou entre os postes, é um facto -, mas a sensação de estranheza não se desfaz sempre que olho para elas. Olho para mim próprio como para um corpo estranho, um corpo a quem a voz e o movimento não parecem ter sido destinados. Alguém que gosta, cada vez mais, de ser conhecido pelas suas mudanças de velocidade e lembrado pelos seus mil vezes repetidos e afamados voos, mas que ficará para a eternidade como o mais estático dos jogadores.

Não quer isto dizer que algumas vez tenha jogado com menos empenho ou de forma mais relaxada, bem pelo contrário. Dificilmente baixo os níveis de concentração e de vaidade. Mesmo jogando sempre sem público e sem câmaras, faço-o como se estivesse a ser observado, para não dizer filmado. Tal como tenho o estranho hábito de falar, às vezes até de pensar, como se estivesse a ser escutado. A minha namorada, por exemplo, quando discutimos um assunto de forma mais acalorada, acusa-me de que não pareço estar apenas a conversar com ela, mas a falar para uma audiência. Para a posteridade. Oiço isto e apetece-me logo largar tudo e ir para o meu canto bater a bola contra a parede, como fazia quando era pequeno, mas tenho medo que alguém me veja e coloque na internet, hoje em dia nunca se sabe. A acontecer, queria pelo menos estar bem equipado.

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joão ferreira oliveira

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