Pronto-a-vestir

Nos anos oitenta do século passado, um pronto-a-vestir numa pequena aldeia era uma atracção e eu era o filho da dona. Ainda não consigo olhar para mim como alguém que nasceu no século passado, mesmo que, em determinados momentos, a minha infância pareça ter tido lugar numa outra vida e num mundo bem mais longínquo do que os 360 km que na realidade nos separam, continuo, contudo, a ver-me como o filho da dona do pronto-a-vestir.

Sempre que me perguntavam o nome e a profissão dos meus pais – há uma idade em que nos perguntam o nome e a profissão dos pais -, lá dava os seus dados e, no caso da minha mãe, acrescentava: dona de um pronto-a-vestir. “Comerciante, não é preciso especificar”, respondiam-me amiúde. Mesmo depois de ter subido a empresária e, mais tarde, descido a reformada – e ultrapassado um pequeno período em que tive vergonha das minhas raízes -, nunca deixei de a ver e anunciar como a dona da única loja de roupa da aldeia. Ainda hoje é assim que a vejo. Como se tivesse agarrada à pele uma peça que jamais pudesse despir.

Tal como ela nunca terá deixado de olhar para mim como o seu manequim. Tempos houve em que tinha uma espécie de vida dupla: além de filho era também o seu modelo privado. Em casa de ferreiro, cabelo espetado e roupa de marca, já diz o ditado e não havia moda, gel ou laca que ela não me aplicasse. Havia, apesar de tudo, algo no qual ela não podia tocar: a roupa de desporto. No meu equipamento mandava eu. Era o meu último reduto, o espaço onde me permitia ser verdadeiramente livre. Teria sido capaz de fechar a mochila a cadeado, se preciso fosse.

Nunca foi. Tínhamos um acordo tácito que jamais esteve perto de ser quebrado. Ela podia fazer de mim o seu tubo de ensaio, eu podia equipar-me como muito bem entendesse. E por equipar-me como muito bem entendesse, entenda-se equipar-me como muito bem entendesse. Enquanto a maioria dos meus colegas procurava, por todos os meios, convencer os pais a presenteá-los com o último modelo da Adidas, Nike, Reebok ou da Le Coq Sportif, eu queria apenas jogar à bola, por mais rota que estivesse a camisola ou por mais largos que fossem os calções.

É provável que alguns questionem o porquê de trazer tão pessoal tema para estas “páginas” – além disso, acredito que a maioria estará já algo cansada destas aventuras caseiras algures entre o heroísmo e a auto-comiseração -, faço-o apenas porque o passado insiste em ter influência nos meus jogos de fim-de-semana.

Da mesma forma que, entre os oito e os dezoito anos, apresentar-me mal vestido em campo era uma forma de alimentar a rebeldia, não usar um equipamento oficial ou uma camisola com o meu nome nas costas é, hoje em dia, uma forma de manter os pés bem assentes no chão. Por mais que, aqui e ali, continue a passar-me pela cabeça ainda estar a tempo de começar uma carreira profissional, basta-me olhar as meias desemparelhadas, os calções de praia ou a t’shirt amarrotada, para me lembrar de que sou e sempre serei jogador de fim-de-semana. Ou isso ou uma enviesada desculpa de alguém que, aos 32 anos, ainda não é capaz de cuidar da sua roupa.

Sei que nada disto afecta a minha prestação em campo, pelo menos directamente, ainda assim, sinto que estará na altura de ter mais algum cuidado com a imagem, à semelhança da maioria dos meus colegas de jogo. Talvez por isso tenha recomeçado a levar um saco cheio de roupa suja sempre que vou à terra, como nos tempos de universitário. Corro o risco de, mais dia menos dia, a minha mãe não resistir à vontade de me vestir, mas já não estou tão certo de ser capaz de recusar.

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joão ferreira oliveira

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