Futebol sem bola

O futebol não fui que inventei, por mais que haja momentos em que me pareça ter nascido comigo, mas o futebol sem bola cheguei a acreditar ter sido uma criação minha. Minha e dos meus amigos de infância e colegas de escola. A única forma de esquecer é fingir, já se sabe, por isso quando não havia bola fazíamos de conta. Toques, passes, remates, faltas, disputávamos jogos com princípio, meio e fim, sabendo que a nossa bola imaginária nunca substituiria uma bola verdadeira, mas convencidos de que não poderíamos ter encontrado melhor solução. Mergulhávamos de tal forma naquele universo que, certo dia, perante um remate ao ângulo, voei tão alto que acabei por deslocar o ombro. Mas agarrei a bola. Ninguém teve dúvidas de que agarrei.

Hoje, não só teria muitas dificuldades em jogar futebol sem bola, como dificilmente fico satisfeito com a bola de jogo. Ou está demasiado cheia, dura como pedra, ou é demasiado leve e saltitona, ou está vazia, ou é pequena, ou demasiado grande, é raro não lhe encontrar um defeito. A bola nem sempre é redonda, ao contrário do que por aqui já foi dito, às vezes parece um ovo, o que me faz começar quase todos os jogos com um certa frustração.

Um hábito, ou um vício, se quiserem, também aceito que possa ser classificado como uma paranóia, que, infelizmente, não é partilhado pela maioria dos jogadores de fim-de-semana. Arrisco mesmo dizer que, grande parte dos meus colegas, joga com qualquer bola, ou independentemente do estado em que a bola esteja, indiferentes ao facto de ser em volta dela que tudo gira. Afirmo-o sabendo que estou, mais uma vez, a generalizar – vício do qual também padeço, ainda que, com este, conviva pacificamente.

Não sejas esquisito, não sejas chato, pára com isso, lá estás tu com as tuas manias, são algumas das frases que oiço no início de todos os jogos quando começo a palpar a bola qual cirurgião. Frases quase sempre ditas a mim mesmo, em surdina, para evitar conflitos e confusões. Salvo uma outra excepção – mete um bocadinho de ar ou tira um bocadinho de ar –, prefiro guardar os defeitos só para mim e usá-los como forma de motivação. Dominar com classe, apesar da bola. Marcar, apesar da bola. Vencer, apesar da bola. É uma táctica como qualquer outra.

Apenas me deixo levar quando encontro alguém parecido comigo, algo que, apesar de tudo, acontece de tempos a tempos. Percebo-o logo no aquecimento. Reconhecemo-nos mutuamente, diga-se. Não direi que seja como encontrar uma alma gémea, não vou tão longe (já fui longe demais nestes textos, pelo menos neste), a verdade é que dou por mim, damos por nós, a comentar as qualidades e características da bola como quem comenta um livro ou um filme. A trocar memórias como se fossem cromos.

Foi desta forma que acabei por descobrir não ter sido eu, nem os meus amigos de infância e colegas de escola, quem inventou o futebol sem bola. Que, tal como eu, tal como nós, houve quem tivesse passado horas a jogar sem bola, com bolas furadas, bolas murchas, bolas de ténis, bolas de matraquilhos, meias, pedras, com tudo o que aparecesse à mão e aos pés.

Não sei se é fundamental um jogador ter dado chutos no ar ou em pedras para perceber a real importância que a bola tem no jogo, tal como não é preciso ter passado fome para saborear uma maçã, ou ser-se mulher para perceber o quanto custa plantar um homem, mas é possível que ajude. A outra possibilidade, há sempre outra possibilidade, é que este seja apenas o comportamento normal de um jovem adulto pouco habituado a que, com o passar dos anos, a realidade e a moral insistam em ganhar espaço à imaginação.

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joão ferreira oliveira

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